Tuesday, July 26, 2005
Baldanders
Prefácio
Há alguns anos, um sujeito escreveu um livro sugerindo que a melancolia generalizada no mundo moderno é resultado do excesso de opções. A tese era mais ou menos a seguinte: nós atribuímos valores diferentes a cada alternativa; quando escolhemos a mais valiosa, sempre o fazemos em detrimento das demais. Até aí, tudo bem. O problema é que ao invés de compararmos o valor da nossa escolha com a segunda melhor, sentimos que perdemos a soma de todas as opções restantes. Portanto, segundo o autor, quanto mais opções, maior a sensação de perda. Acho que, em síntese, é isto. Mas não tenho certeza. Nunca li o livro. Nem pretendo ler.
Mas quando li sobre este livro numa resenha, me reconheci instantaneamente. Eu conhecia bem a dor e a frustração da perda dos caminhos não percorridos, mesmo quando o percurso que escolhi era claramente o melhor. Lembro bem da ambigüidade que senti em ler o artigo. Eu adorei sentir aquele “clic” delicioso de me encontrar num texto, um reconhecimento que lembra um reencontro com um velho amigo. Ao mesmo tempo fiquei deprimido, porque tive que dividir o que parecia, até então, uma angústia intima e pessoal, com milhões de pessoas da minha faixa etária.
O artigo ficou me incomodando durante alguns dias, mas naqueles dias eu ainda não podia sequer imaginar o quão profundamente eu veria esta teoria ser posta à prova.Pronto. Depois deste último parágrafo parece óbvio que o relato vai descambar pra uma estória do tipo “experiência definidora”. O formato é banal e tem origem imemorial.1. Primeiro é apresentado um protagonista com uma inclinação caricata de caráter: muito egoísta, muito ingênuo, muito cínico, muito cético, muito romântico ou muito qualquer outra coisa.
2. Depois vem o “life changing event”: a descoberta de um câncer terminal, um tiro que mata a esposa que surpreende o marido numa festa surpresa, uma abdução por alienígenas protologistas ou um milagre de Natal.
3. Finalmente, o protagonista é reapresentado após sua metamorfose.O único problema é que não existem “estórias definidoras”. As pessoas sempre são o que são.Eu vivi meses surpreendentes, beirando o surreal. Fui obrigado a redefinir minha visão de mundo; mas emergi de toda a experiência essencialmente o mesmo. Um dia ouvi um repórter comentar com o Brian Green, um físico famoso, sobre seu livro a cerca da complicadíssima teoria das supercordas: “tudo que você escreve faz muito sentido... até o momento em que eu tiro os olhos do livro”. Eu entendi perfeitamente o que ele quis dizer. Durante minha estadia no Vale da Cuca, tudo fez perfeito sentido. Quando eu voltei pra casa não consegui reencontrar as verdades que lá pareciam tão auto-evidentes.Quando eu tinha oito anos eu entrei no mar da praia de Copacabana, em frente ao guarda sol laranja fincado na areia pelo meu avô. Eu brinquei durante o que me pareceram horas sem perceber que a correnteza havia me afastado do guarda sol. O calafrio de pânico repentino que eu senti, quando me dei conta de onde estava, foi idêntico ao que eu senti ao perceber o quanto, depois da minha volta, minha rotina havia retomado conta de mim sem que eu percebesse.
Escrever me parece a melhor forma de tentar revisitar os incríveis eventos dos últimos meses e quiçá recuperar o sentido perdido. Mesmo que eu não consiga me salvar do afogamento da minha antiga rotina, pelo menos deixo registrados os meses mais estranhos da minha vida.
Primeira parte 1
1
Quando tudo indicava que eu seria irremediavelmente sugado ao meu deserto dos Tártaros pessoal, o acaso me resgatou. Dizem que “sorte é quando a oportunidade encontra o preparo”. É uma ótima máxima para campanhas motivacionais de empresas, mas sem nenhuma relação com a verdade. A sorte bateu na minha porta, ou melhor, tocou meu telefone sem que eu estivesse minimamente preparado. Aliás, a única coisa para a qual eu estava preparado era a inércia.
“Alô.” Eu atendo impaciente. Já imagino a voz da minha mãe reclamando das dores e perguntando se eu estou namorando. Ou pior ainda, o texto recitado de uma operadora de televendas, a ironia suprema.
“Sr. Daniel Esdras?”
A voz é feminina, mas a entonação é muito dura e assertiva para uma operadora de telemarketing. Operadoras sempre têm uma voz nasal e terminam a frase com um alongamento da última vogal (Sr. Esdrãaans?) irritantemente solicito.“Quem gostaria?”
“É ele quem está falando?”
Segunda-feira, atrasado pro trabalho e alguma desconhecida fica tentando forçar minha identificação positiva pra me vender uma coisa que eu certamente nem preciso nem quero. É uma das circunstâncias mais propícias para desligar o telefone na cara de alguém, mas ao invés disto, eu intensifico o tom de irritação. “Olha, querida, falar no telefone é bem simples. Quando você me liga, VOCÊ se identifica, não o contrário. ”
“Desculpe. Meu nome é Amanda Demiers.”
A resposta tem um tom mais surpreso do que ofendido. Mas de qualquer forma acho que fui desnecessária e inconseqüentemente rude. Amanda? Eu vasculho a memória sem sucesso.
“Amandaaa...”
“Demiers. O Sr. Não me conhece.”
Espero que não seja alguém importante. O remorso traz a esperança de que seja algum pedido de doação para a Casa dos sete arco-íris ou coisa que o valha. Por segurança tento remediar a grosseria com cordialidade.
“Você.”“...”“Por favor, me chame de você.”
“Ah.. Eu sou advogada e represento o Sr. Renato Caleb. Estou ligando em nome dele.”“Renato Caleb?”
“Meu cliente pediu pra que eu entrasse em contato com o senhor. Ele gostaria de lhe fazer uma proposta.”
“Uma proposta?”
Idiota, como eu sou idiota. “falar no telefone é bem simples...” Idiota.
“De trabalho. Mas o Sr. Caleb gostaria de discutir esta proposta na sua casa de campo.”
“Minha casa de campo?”
Pronto. Nada mais típico do que eu fazer papel de idiota quando sou pego de surpresa. É como se o tempo acelerasse demais para eu acompanha-lo conscientemente.
“Não. A casa de campo dele. Ela fica perto do município de Teresópolis. No Vale da Cuca.”
Eu calo a boca como forma instintiva de auto-defesa.
“...”
“Obviamente, nós temos como providenciar seu transporte até lá.”
“Que proposta de trabalho? E porque em Teresópolis? Desculpa a pergunta, mas isto é alguma pegadinha?”
Se eu pudesse sentir o impacto das idiotices que eu digo com uma fração de segundos de antecedência...
“Nós já comandamos um depósito em sua conta corrente como forma de adiantamento no valor equivalente ao seu salário anual. Pelo tempo que você despender com o Sr. Caleb.”
“Meu salário anual? E como você sabe meu salário anual?”
“Da mesma forma que eu sei seu telefone.”
“...”Acho que ouvi uma risada.
“Quantos anos você tem?”
Eu desisto de tentar segurar a rédea e relaxo.
“O quê?”
“Eu ouvi você rindo ou foi impressão minha?”
“Olha... O senhor pode vir?”
“Você. Me chama de você. Você riu, né?”
“Eu tenho trinta e dois anos.” Ela responde montonicamente. Você pode ou não vir?”
“Você tem voz de mais velha. Mas, rindo, pareceu bem mais nova...”
Tenho vontade de chorar e engolir de volta esta frase. Eu sou realmente péssimo em diálogos improvisados. Eu já devia ter aprendido que eu sempre preciso ensaiar antes de qualquer conversa.
Ela ignora meu comentário idiota e segue num tom profissional. É obvio que a risada dela foi de desprezo, mas na minha memória ela é quase terna.
“Você pode vir?”
Meu impulso é dizer “Lógico! Me passa o endereço!”, mas eu consigo me controlar.“Eu não posso largar meu trabalho assim, sem aviso prévio. Eu preciso me organizar...”Ela faz uma pausa longa demais. Espero que ela não desista.
“Olha, eu posso providenciar um motorista para buscá-lo amanhã de manhã.”
“Pode ser às oito?” Eu respondo automaticamente.
“Confirmado às oito. O nome do motorista é Marrom.”
“Marrom. Tudo bem.”
“Até logo.”
“Tchau, um beijo.”
Clic.
Um beijo? Um beijo? O que diabos eu estou fazendo? Quantos dias eu vou ficar lá? Que tipo de roupa eu levo? O que eu vou dizer pra Lisandra? E como ela sabe tanta coisa sobre mim? Como eu sou idiota, idiota, idi... O telefone interrompe a minha autocomiseração.
“Daniel?”
“Amanda?”
“Eu esqueci de dizer. Lembre de trazer uma mala para pelo menos cinco dias. Por via das dúvidas.”
“Cinco dias?”
“Pelo menos.”
“Ok.”
“Até logo.”
“Um Beijo. Tchau.”
Mandei um beijo de novo! Brilhante, Dom Juan.
2No caminho pro escritório eu ensaio mentalmente o discurso pra minha chefa, enquanto tusso repetidamente, dobrando o corpo sobre o volante. Lisandra, obrigado por tudo, mas eu recebi uma proposta irrecusável de trabalho.
Não.Lisandra, vai pra puta que te pariu.
Essa é boa. Direta, quase elegante apesar de um pouco grossa. Mas eu não vou queimar pontes.
Que tal: Lisandra, eu preciso de uma licença não remunerada. Um mês sabático.
É, não deve ser tão difícil convencê-la.
3.
Chego no escritório com as mãos geladas. Cumprimento todas as pessoas mecanicamente, quase sem voz. Bato na porta do escritório da Lisandra. Lisandra é uma baiana filha de usineiros ricos. Ela virou diretora da PMKT, uma das maiores agências de marketing direto do país, provavelmente por indicações políticas. Eu a odeio. Mas sei que ela é boa pessoa.
“Com licença.”
Eu espero do lado de fora, com uma perna dentro da sala. Ela está falando no telefone, mas acena pra eu entrar e sussurra ‘espera um pouco’ com a mão direita cobrindo o fone. Ela me deixa esperando mais de dez minutos, em pé. Ela está falando com um cliente, contando um causo qualquer. De vez em quando ela me encara e levanta as sobrancelhas querendo dizer ‘desculpa, cliente, sabe como é, né”. Eu fico repetindo o meu discurso na cabeça.Ela se despede do cliente mandando uma ‘beijoca’, carregando no sotaque baiano.
“Oi, meu querido, desculpa. Senta, senta que é o mesmo preço.”
Eu sento na cadeira na sua frente. Minhas mãos estão geladas e a maldita sudorese nervosa resolve dar o ar da graça. Eu sinto uma gota de suor escorrer pela minha pele, acompanhando o vale da minha coluna vertebral, e desencosto da cadeira.
“Lisandra, eu queria te pedir uma coisa.”
“Ô meu bem, qualquer coisa”.
Só o sorriso ensaiado dela poderia ser o suficiente para me transformar num psicopata assassino. O sotaque e os ‘meu bem’ e ‘meu querido’ são só requintes de crueldade. Eu quero matar ela por estrangulamento. Eu me apoio na mesa.
“Sabe o que é...”
Ela se reclina abrindo ainda mais o sorriso. Totalmente confiante.
“Eu preciso de um dia. Talvez dois. Pra resolver uns problemas. Pessoais.”
Um ou dois dias? O que diabos eu estou falando? A Amanda falou cinco dias!
"Meu amor, você tá com algum problema de saúde? Olha, não se preocupa não. A gente termina a campanha do Banco Jóia e depois você tira um dia pra resolver o seu problema.”
Ela abre sua agenda de couro da Louis Vuitton ou Prada, ou coisa que o valha, e examina passando a ponta da caneta nas páginas.
“Olha, que tal dia dezoito?”
Eu engulo seco. O suor já molha a barra da minha cueca e começa a escorrer pela fenda da minha bunda. Eu tento me ajeitar na cadeira. Estamos no dia dois.
“Eu preciso amanhã.”
“Não, bem, amanhã infelizmente não dá.”
O sorriso fica complacente com uma quedinha da cabeça pro lado esquerdo.
“É que eu precisava...”
Minha voz some.
“Olha, vamos chegar a um acordo. A gente pode tentar terminar o projeto mais cedo. Quem sabe você sai antes mesmo do dia 18?”
“Ok.”
“Você é lindo! Tá tudo bem com você, né?”
“Tudo.”
Exceto o fato de eu ser completamente idiota. Eu saio da sala com um sorriso preparado com muito esforço. Ela sorri magnânima e não espera a minha saída pra pegar o telefone.
4.
Eu estou sentado olhando pra tela do computador do meu cubículo. Na tela, os títulos dos nossos templates de projeto esperam seus blocos de texto. Todo projeto tem o mesmo formato, os mesmos títulos e subtítulos. Há seis anos eu preencho o conteúdo abaixo destes títulos e subtítulos. Nos últimos meses tem sido impossível abrir o documento padrão sem sentir náusea. Neste momento, no entanto, as letras dos títulos se embaralham e parecem novas. Sabe quando você repete muito a mesma palavra e, de repente, percebe o quão esquisita ela é? Esquisita. Es quisita. Es qui zi tá. Esqui-zita. E squisit ah. Bom, é a mesma sensação.
Eu leio o primeiro título: Objetivo do Projeto. Qual o objetivo deste projeto? Vender mais cartões de crédito? Como escrever isto de forma prolixa? ‘Maximizar a captação de proponentes de crédito através de canais de mídia alternativa’. Ótimo, vou vomitar. Eu repouso as mãos no teclado. Qual será o rosto da Amanda? Deve ser uma gorda desdentada.
Eu imagino a Julia Roberts em Erin Brocowitz.
Eu olho por trás do ombro direito. Ninguém prestando atenção. Eu ligo a Internet. Digito Caleb. Ótimo, só um milhão e seiscentos mil links. O primeiro link é o “Caleb Project Home”. A descrição abreviada, em inglês, diz: “Develops media tools and training resources to equip the body of Christ for strategic ministry to unreached peoples”. Maravilha! Eu fantasiando uma oportunidade de mudar de vida e a proposta que eu recebo é pra trabalhar na área de marekting de uma igreja evangélica. Não pode ser. Eu troco a procura para “Renato Caleb”. Nenhum hit.
“Matando trabalho, hein bonitão?”
Filho da Puta. Eu viro de costas e vejo o Arthur debruçado na baia vizinha. O Arthur tem quase dois metros de altura e a graciosidade de um albatroz pra acompanhar.
“Duas oxítonas pra você. Vaitomá nocú!”
“Nossa, dormiu com o Bozo e acordou gozado?”
“Quantos anos você tem? Onze?”
“Você que começou.”
“Não, você saiu do SEU cubículo pra vir me incomodar no meu.”
“Ah, desculpa, eu não sabia que você estava tão ocupado.” Ele vira os olhos com afetação.
“Vai se fuder. Vamo tomá um café”
Caminhamos em silêncio até a copa, contornando a selva de cubículos. Ele vai até a máquina de café e fala: “hoje, você paga.” Estendendo a mão pra mim. Eu sempre pago. Eu pego duas fichas na carteira e entrego pra ele. Enquanto a máquina processa o expresso, Arthur se vira pra mim e se recosta na máquina com os braços cruzados sobre o peito.“Que cara de cu.”
“Aconteceu um negócio estranho comigo hoje.”
“Você finalmente assumiu sua homossexualidade e deu.” ele diz, fingindo cara de sério.Eu não respondo. Abro a portinha da máquina e pego o meu expresso. Aproximo o copo da boca e fico soprando o café, ritmicamente. O Arthur procura o meu olhar por baixo do copo.
“Fala!”
Eu afasto o café da boca. “Eu recebi uma proposta de emprego.”
“Ah...Achei que era alguma coisa séria. Não se preocupa, com certeza é algum engano!”
Eu deixo ele rir sozinho.
“Pra onde?”
Eu o encaro. “Não sei.”
Agora é vez do Arthur me encarar em silêncio. E minha vez de rir. Ele faz cara de azedo e eu resolvo contar pra ele.
“Você não vai abrir esta boca mole, vai?”
“Estou ofendido” ele diz com as duas mãos sobre o peito direito e cara de despeito.
Eu sei que nossa performance é patética. Uma mistura de Jerry Lewis e Dean Martin de segunda categoria com uma versão mexicana de um sitcom americano. Mas eu confesso que é uma dos poucos alentos no ambiente claustrofóbico do escritório.
“O coração é do outro lado”
“É que foi uma facada no rim”
“O rim é embaixo e nas costas.”
“Quem é? Desembucha!”
“Um cara. O nome é Renato Caleb”
“Nunca ouvi falar. É um trampo particular?”
Finalmente ele larga o modo palhaço e parece se interessar de verdade no assunto. Engraçado como precisamos de todo este joguinho de troca de insultos e piadas infantis para demonstrar carinho.
“Uma mulher ligou pra mim hoje de manhã.”
“Uma mulher que não é a sua mãe, eu suponho.” Ele faz cara de reflexão, espremendo os olhos e coçando o queixo.
Eu ignoro.
“Ela disse que representa este tal de Caleb. E quer que eu vá fazer uma entrevista com ele, pra ouvir uma proposta de trabalho.”
“Vai fazer a entrevista. Quê que você tem a perder.”
“A entrevista é em Teresópolis. Perto de Teresópolis.”
“Teresópolis?”
“É uma cidade serrana perto do Rio.”
“Tem certeza que esta proposta é séria?”
“Não. Não tenho.”
“Ela não falou qual era o trabalho?”
“Não.”
“E você não perguntou?”
Eu não respondo e ele começa com alguma brincadeira, mas eu não consigo mais entender o que ele está falando. Minha visão embaça. O depósito. Que imbecil! O depósito!“Puta merda, o depósito, esqueci totalmente da porra do depósito” eu jogo o copo de café ainda cheio no lixo e disparo em direção ao meu cubículo. O Arthur me segue quase tropeçando nos meus calcanhares.
5.
Eu digito a senha errada do banco duas vezes antes de conseguir entrar na minha conta corrente pela Internet. Eu respiro fundo antes de clicar no botão de visualizar o saldo da conta corrente. O Arthur quase segura a minha mão pra empurrar o mouse. Eu o afasto com um empurrão da cadeira.
Inacreditável. O Arthur me olha magoado: “ e você regula pra me pagar um café!”
“Eu sempre pago o seu café!”
“Como você conseguiu juntar esta grana sem me contar?”
“A Amanda depositou esta grana pra mim...” Eu me perco em pensamento.
“Quem é Amanda seu gigolô?”
“Quem é Amanda?” Eu gelo quando ouço o sotaque baiano. O Arthur pede licença, totalmente sem jeito e se esquiva pra desviar da Lisandra e sair do meu cubículo. Eu encaro a Lisandra congelado de pânico. Porque diabos eu fico tão idiota diante da mínima possibilidade de stress? Espero que ela não pergunte de novo. Eu fecho a janela da Internet e puxo o assunto da apresentação pro Banco Jóia.
“Eu já comecei a trabalhar no relatório.” Eu digo apontando para a frase solitária debaixo do tópico ‘objetivo do projeto’. Ela não tira os olhos de mim e, mesmo virado pro computador eu sinto seu olhar queimando a minha nuca. “Você, hein!” Ela sorri fazendo “humpf” pra mim. Ela me acerta de leve com a caneta na cabeça e começa a se afastar do cubículo. Já no corredor ela, dá uma parada, vira-se na minha direção e diz: “Se a gente pensar mais no relatório e menos em romance, quem sabe a gente não consegue terminar isto até o dia 15 e você pode tirar o seu dia pra ‘coisas pessoais’”.Será que a Lisandra tem uma quedinha por mim? Ela pareceu tão despeitada quando perguntou “quem é Amanda”. E esse papo de romance? Parece conversa de mulher traída. Não. Não pode ser. Eu sou um pé-rapado, especialmente comparado a ela. E apesar de mais jovem, não sou o típico namorado-jovem-de-perua-recauchutada. Ela até bem comível, mesmo já tendo passado dos quarenta... Mas eu sou um cara fiel. Minha imaginação erótica está totalmente ocupada pela Amanda.
6.
Eu não sei arrumar mala. Nunca soube. Ainda mais tossindo feito um condenado. Espero que pelo menos uma camisa não chegue totalmente amarrotada.
Eu fecho a sacola com a certeza de ter esquecido alguma coisa fundamental, mas sem a concentração necessária para verificar. Seja o que Deus quiser.
Eu tomo um banho demorado e não consigo atribuir um corpo à voz da Amanda. Nada de sexo solitário no chuveiro hoje à noite. Especialmente com a cabeça tão ocupada. Eu programo o despertador do rádio relógio da cabeceira para as sete da manhã, me deito e apago a luz. Eu acendo o abajur e reajusto o alarme pras seis e meia e apago mais uma vez a luz. Meus olhos estão estatelados, encarando o teto escuro. Eu espero. E espero. Uma hora passa. Eu levanto e programo o despertador do celular, só pra garantir. Antes de deitar resolvo programar também o despertador da televisão, só pra dormir despreocupado. Deito de novo e fico ensaiando mentalmente alternativas para minha apresentação.
Frio e firme: “Prazer. Daniel. Obrigado pelo convite.”
Sorridente e caloroso: “Amanda? Muito obrigado pelo convite.”
Blasé e direto: “Olá. Daniel Esdras.”
Preocupado e motivado: “Prazer. Daniel Esdras. Não encontrei informações sobre o seu cliente na Internet. Estou ansioso em conhecer a natureza da proposta.”
Apaixonado e caliente: “Amanda. Eu estava ansioso por esse momento. Felizmente, valeu a pena esperar.”
Eu durmo e não sonho nem com a Amanda, nem com o Sr. Caleb, mas com a Lisandra me algemando e me jogando numa prisão, mas a prisão é a minha antiga sala da faculdade. Eu tento explicar alguma coisa pra ela, mas ela fica impassível, me encarando de espartilho, calcinha e blazer.
7.
Eu acordo dez minutos antes do despertador disparar. Eu me espreguiço na cama. Meu estomago dói. Eu tusso e me cubro. É isso aí. Vamos ver no que vai dar. Será que eu ligo pro escritório? Eu não posso simplesmente não aparecer. Mas o quê que eu vou dizer?Dane-se. Hoje talvez minha vida finalmente dê uma guinada. Eu sei que para a maioria das pessoas, momentos definidores só são identificados em retrospectiva. Uma humilhação pública ou uma vitória retumbante, a perda de alguém importante ou o encontro com a pessoa que será o amor da sua vida só se provam decisivos depois do desenrolar das suas conseqüências. Mas eu sempre conheço meus momentos definidores na mesma hora em que eles acontecem. É bem verdade que para conseguir esta façanha eu lanço mão de uma artimanha um tanto espúria. Eu sempre assumo que qualquer momento é definidor. Eu projeto conseqüências extremas para cada troca de olhares, cada erro ou acerto, cada palavra proferida. Vivo esperando pelo evento, por mais banal que seja, que vai me resgatar da minha vida. Ou me danar de vez. Claro que eu freqüentemente erro, já que a maior parte dos momentos da minha vida acaba se em becos sem saída. Mas, por outro lado, eu nunca tive um evento definidor que eu não tenha reconhecido, de antemão, como tal. E no caso deste convite descabido, eu não consigo imaginar como eu posso estar errado.
8.
Eu estou vestindo uma calça caqui com camisa azul. Eu me olho no espelho da portaria pela vigésima oitava vez e finalmente entendo o que está me incomodando. Estou parecendo um funcionário da Blockbuster. Eu devia ter vestido um terno. Ah, foda-se, vou tentar desligar minha neurose e ser um pouco mais maduro e seguro. Eles é que me convidaram. E até pagaram. E muito.
Eu caminho de um lado pro outro no hall. São sete e quarenta da manhã e eu já estou elétrico.
Deve ser um engano. Eu devia ter transferido o dinheiro pra outra conta. Ou sacado tudo e escondido debaixo do colchão. Agora o banco vai estornar a transação. Será que o banco pode fazer isto? Não consigo imaginar pra que alguém me contrataria. Nunca fiz nada de útil. Exceto um projeto de feira de ciências na 6a série sobre poluição fluvial. Aquele foi o ponto alto da minha produção intelectual - de lá, foi só morro abaixo.Um sedan de luxo preto encosta-se à calçada. Eu tusso seco com a ponta da língua projetada pra fora da boca. Um sujeito negro e baixinho, compacto como um tronco e vestindo um paletó marrom sai do carro e caminha em direção ao portão. Eu caminho ao encontro dele.
“Seu Daniel Esdras?”
“Prazer.” Eu estendo a mão.
Ele pega a minha mão com um sorriso largo estampado no rosto enrugado. “Eu sou o Marrom.”A palma da mão do Marrom é uma lixa em forma de balão. Ele segura a minha mão com força e por quinze segundos a mais do que eu julgaria necessário. Ele estende a mão para pegar a minha sacola.
“O senhor tem outra mala?”
“Eu devia estar levando uma mala maior, né?” eu penso em voz alta.Marrom solta uma risada roca, igual a do Rabugento. Ele aparentemente não me leva a sério. Coloca a minha sacola no porta-malas e segura a porta de trás esperando que eu entre no carro, o sorriso firme e forte.
Resignado e envergonhado, eu entro e sento no banco de couro.Ele dirige em silêncio, mas eu sinto que ele ainda está sorrindo. Fico até arrepiado. Estou me sentindo num episódio do “Além da imaginação”; fico quase esperando que ele vire um lobisomem ou coisa do gênero.
Antes de ter um crise de nervos ou comer um dedo de tanto roer a unha eu resolvo quebrar o silêncio.
“Marrom, você conhece o Renato Caleb?”
“O seu Renato? Ô! Desde quando ele usava calças curtas. Eu trabalhava pro pai dele.”
“O quê que ele faz?”
“Como assim?”
Como assim? Como assim como assim?
“Ele trabalha com o quê?” Eu explicito.
“Ah.” Pausa “ O seu Caleb num trabalha não.”
O tom da resposta, não sei porque, parece mais sério. Eu sinto que o sorriso do Marrom, que parecia uma cicatriz de tão fixo, sumiu. Eu procuro, em vão, a boca do Marrom no espelho retrovisor pra confirmar. Aposentado? O Marrom não deve ter muito mais de sessenta anos; e disse que conhecia o Caleb desde quando este usava calças curtas. Como este pode estar aposentado? Será que é um herdeiro playboy?
“Quantos anos tem o seu Caleb.”
O motorista ri sozinho, numa pausa longa, antes de responder.
“Tem trinta e quatro. Mas ele vive dizendo que tem mais de cem.”
Ele parece se divertir com a sua resposta.
“Uma alma velha.”
Eu digo por falta de algo melhor pra encerrar a conversa.
9.
Eu nunca tinha andado de helicóptero. Graças a isto, eu finalmente consigo me distrair a caminho do Rio de Janeiro. Eu viajo com o Marrom no banco de trás, mas sem falar nada além de comentar sobre a vista da cidade de São Paulo. “Pelo menos daqui de cima ela não é tão feia.” Ele, obviamente, ri.
Chegamos na hora do almoço em um heliporto no Rio. A vista na chegada é estonteante. Eu sinto que só a viagem já vale ter provavelmente perdido o emprego.Do heliporto pegamos outro carro e o Marrom me informa que em duas horas e meia estaremos chegando. Eu nem me lembrava de ter caído no sono quando acordo com o sacolejo da estrada de terra. Eu me espreguiço e ouço a já familiar risada do Marrom: “Bom dia!Já ta quase chegando.” Eu vejo os seu olhos me olhando pelo retrovisor.Eu tenho ânsia de vômito. Mas o Marrom deve ser mineiro. O seu ‘quase’ demora mais de meia hora, que com o sacolejo da estrada que alterna terra e paralelepípedos amplifica o meu enjôo.
O carro passa por um portão de metal alto e entra numa estradinha de pedras quadradas ladeadas de imenso gramado. Eu vejo uma casa de tijolos aparentes, grande, mas não suntuosa no topo do terreno em forma de colina. Atrás da casa, pinheiros, eucaliptos e outras árvores altas que não reconheço, dançam ao vento se inclinando tanto que parece que vão quebrar a cada oscilação. É uma cena linda.
Eu faço um esforço deliberado de registrar os detalhes na memória. É uma cena digna de momentodecisivonavida.
O carro se aproxima da rotatória na frente da casa, que envolve um jardim florido e cuidado com esmero. Eu vejo um vulto feminino esperando o carro na frente da porta alta de madeira. Será a Amanda?
Gulp.
10.
Rabos de cavalo. Eu tenho um fetiche por rabos de cavalo. Acho que se até a Araci de Almeida usasse rabo de cavalo eu me apaixonava por ela. É pura covardia que a Amanda seja, não somente jovem e bonita, mas esteja me esperando de calça preta e camisa branca, pulôver vermelho jogado nas costas, usando rabo de cavalo. Parece uma propaganda da Pólo Ralph Loren. Ela tem cerca de um metro e setenta, cabelos castanhos lisos e estatura quase magra demais. Eu desejo intensamente poder verificar meu cabelo num espelho antes de encontrar com ela, mas me conformo em passar a mão nos fios oleosos, antes de sair do carro. Para piorar, eu sinto o tecido da calça repuxar com uma ereção surpresa, logo antes do carro chegar à frente da casa. Eu quero tanto morrer que nem sinto raiva! Eu saio do carro com as mãos na frente da calça, como um jogador de futebol em posição de barreira.
“Sr. Esdras?”
Nossa! Que sorriso gelado! Eu quero voltar pro carro. De preferência pro porta malas.
“Daniel. Amanda?”
Eu estendo a mão direita e enfio a esquerda no bolso, tentando disfarçar a ereção que já dói de tão intensa. Eu sorrio com esforço.
Ela me cumprimenta rápida e seca. Sua mão é fria, macia e fina. Se já houve mais perfeito exemplo de antítese do que um aperto de mão com Marrom e com a Amanda, eu desconheço. Ela me examina de cima a baixo, discretamente. Eu me sinto nu. Cubro novamente a frente das calças com as mãos dadas, fazendo esforço para parecer natural.“Prazer. Vamos entrar.” Ela olha pro Marrom por cima dos meus ombros. “Oi Marrom. Você leva as malas dele pro quarto vinho, por favor?”
O Marrom merece um sorriso quente, sincero. Porque ela me odeia?Ela entra na casa e eu sigo ela. No caminho eu imaginei que encontraria uma mansão Vitoriana, com estatuas de mármore e pinturas a óleo emolduradas em dourado nas paredes. O que eu encontro é muito mais aconchegante. Uma casa de campo, com móveis com cara de uso e a decoração rústica e quente. As paredes internas são repletas de janelas que transbordam a luz oblíqua do fim de tarde. Finalmente uma sensação reconfortante.“Porque você não vai até o seu quarto e toma um banho. O Sr. Caleb quer falar com você antes do jantar. Seu quarto é o segundo a direita, subindo a escada. Eu te espero às 19:00 na Biblioteca.” Ela aponta pra sala a nossa direita. O tom da Amanda é tão ríspido que beira o agressivo. Eu nem consigo responder. Aceno que sim com a cabeça e sigo o Marrom pro quarto. Quando chegamos no quarto ele se vira e estende a mão, pra se despedir.“Prazer, viu. Tudo de bom”
Eu seguro a mão do Marrom pra perguntar.
“Ela é sempre zangada assim?” eu inclino a cabeça na direção da sala no andar de baixo.Ele dá sua risada de Rabugento e balança a cabeça, saindo do quarto: “Foi um prazer, viu.”Quando ele sai do quarto, eu me sinto um órfão abandonado. O quarto tem um cheiro ótimo, uma cama com roupa de cama alegre, uma escrivaninha de madeira com um laptop fechado e quadros de aquarela com molduras de madeira patinada. Mas eu me sinto numa masmorra gelada. Me arrependo de ter vindo sem perguntar mais. Sinto até saudades da tonta da Lisandra.
11.
Eu abro a minha sacola e estendo as roupas na cama, enrolado num roupão grosso, de banho tomado. Todas as camisas estão marcadas nas posições das dobras e as calças amarrotadas. Escolho uma calça preta com camisa branca. Melhor não arriscar. Será que eu devia ter trazido um terno?
Eu desço as escadas pisando com a ponta dos pés pra tentar diminuir o barulho seco do sapato nos degraus de madeira. Eu sigo em direção à biblioteca e bato na porta entreaberta. A Amanda está sentada atrás da escrivaninha repleta de papéis, digitando em um laptop.
“Entra. Senta aí” Ela fala sem levantar os olhos.
Eu sento. E suspiro.
Ela levanta os olhos do computador. “Eu imprimi uns papéis pra você assinar. Você quer dar uma olhada?”
“Claro, claro.” Eu estendo as mãos, solicito. Ela me entrega duas folhas de papel impressos com letras pequenas.
“São só alguns contratos de confidencialidade. Nada fora do ordinário.”
Ela estende uma caneta. Eu pego e olho nos olhos dela. Ela quase sorri.
“Isto tudo é muuuito estranho pra mim, sabe.”
Ela sorri, aparentemente a contragosto. Apóia os cotovelos na mesa e o queixo nas costas das mãos, esperando uma elaboração. Eu continuo.
“Vocês ainda não me disseram o que vocês querem de mim.”
O sorriso dela abre, num tom um pouco condescendente demais pro meu gosto.“É pra isso que você precisa assinar estes papeis.”
Pronto. O meu tesão perdeu pro ódio. Odeio ser tratado com condescendência. Eu posso ser um sujeito pacato, mas tenho algum resquício de orgulho.
“Eu preciso de alguns minutos pra ler.”
Ela levanta. E começa a sair da sala.
“Fique a vontade, meu caro.”
Antes que ela saia, eu não resisto.
“Porque eu sinto uma certa agressividade no seu tom?”
Ela dá uma paradinha. “O que você sente, só você pode expli” Ela interrompe a frase no meio. Eu viro e vejo um sujeito jovem entrar na sala e segurar um dos ombros da Amanda enquanto se dirige a mim.
“Daniel?”
Ele abre um sorriso largo, caloroso e vem em minha direção, conduzindo a Amanda pela mão de volta pra sala.
“Desculpe a Amanda. Ela não é muito fã desse meu projeto, não é?” Ele pisca pra ela e estende a mão em minha direção.
“Muito prazer! Renato Caleb!”
Quando eu aperto a sua mão direita, ele envolve a minha com a sua esquerda, num gesto de carinho que me deixa constrangido. Minhas bochechas queimam. Eu procuro o rosto da Amanda por trás dele e vejo uma cara de reprovação resignada. Os olhos do Caleb brilham.
“Finalmente eu te conheço pessoalmente!”
Minha vida sempre foi uma produção de segunda categoria. Dos cenários aos diálogos, do elenco à iluminação. A partir da ligação da Amanda, no entanto, é como se eu estivesse vivendo um upgrade para superprodução. E eu não estou só falando do helicóptero, da aparência da Amanda ou da imponência da casa de campo. É como se a qualidade da imagem e do som da minha vida tivessem migrado de analógica pra digital. A luz do Sol que incidia na casa de campo quando eu cheguei era de uma natureza diferente da luz fria do meu cubículo, ou da luz insuficiente do meu apartamento ou da luz ofuscada pela poluição de São Paulo. As vozes do Renato e da Amanda são cristalinas, sem qualquer ruído de fundo. O único elemento que me permite acreditar que eu não estou vivendo num filme é a ausência de trilha sonora. Eu adoro esta nova sensação. Eu normalmente prefiro as produções européias, mas este ritmo Hollywoodiano é sensacional. Apesar de estar num ambiente estranho, com pessoas estranhas e numa circunstância totalmente nova, eu me sinto bem. E surpreendentemente seguro. Eu sorrio de volta para o Renato.
“Que papéis são estes?”
Eu estendo a mão e entrego o termo de confidencialidade para o Renato. Ele pega o papel na mão, dá uma risada sonora e olha pra Amanda, que agora estampa uma cara tão amarrada e zangada que é quase cômica. Ele olha pra ela com a cabeça inclinada e faz um gesto de palmada com a mão direita estendida na sua direção. Ela cerra os olhos. Eu estou sorrindo, esperando que ele quebre o silêncio.
“Como foi sua viagem? Porque a gente não toma um drink antes do jantar pra se conhecer um pouco?”
Ele passa um dos braços pelas minhas costas e me conduz para a sala de estar. A Amanda segue para o outro lado, sem falar uma palavra. Ele me conduz para um sofá baixo de algodão branco, e eu sento, na ponta da almofada. A sala está quase escura, iluminada exclusivamente por um abajur de chão. Da posição onde eu estou, consigo ver a poeira de estrelas lá fora, através da janela vazia. Eu nem lembro qual foi a última vez que eu vi um céu noturno como este. Eu conto ao Renato, telegraficamente, sobre a minha viagem. Depois de um breve silêncio, eu lembro de lhe agradecer. Eu não consigo perguntar sobre a proposta, com medo de ferir alguma regra de etiqueta que eu desconheça.
“Então...”
Ele está sentado, esfregando levemente os braços da poltrona de couro. O seu sorriso é sincero, quase infantil.
“Eu imagino que você deva estar curioso sobre a natureza do meu convite.”Eu sorrio, esperando que ele continue. Eu tento me concentrar e encarar o Renato, mas meus pensamentos estão perdidos na Amanda. A indiferença e a hostilidade dela estão me deixando louco. O Renato me examina em silêncio, como se estivesse esperando a minha deixa.
“É claro que eu estou curioso!”
Ele ri reconfortado e se rearruma na ponta do assento, com os cotovelos apoiados nos braços da poltrona. Eu me sinto como o aluno atencioso que fez a pergunta certa.
“Você já pensou em escrever um livro?”
12.
Não. Eu nunca sequer cogitei escrever um livro. Eu já quis ser ator de cinema, astronauta e milionário. Mas nunca escritor. O estereotipo de escritor que eu tenho é de um sujeito com a cara do Woody Allen, mas sem o dinheiro dele. Além disto, eu não me lembro de ter escrito nada mais extenso do que duas ou três páginas, na faculdade. No entanto, a pergunta direta do Renato me fez entrar no “modo de entrevista de trabalho”. Em entrevistas eu sempre respondo positivamente e, quando tenho dúvidas sobre o que o meu entrevistador quer que eu diga, uso uma tática infalível: procuro identificar o que eu diria intuitivamente, e digo exatamente o contrário.
“Claro.” Eu respondo com as sobrancelhas levantadas.
Eu vejo que dei a resposta correta mais uma vez. O Renato me encara alargando seu sorriso, junta as mãos produzindo um aplauso solitário e se levanta.
“Maravilha! Vamos jantar!”
Minha expressão deve estar entregando o quanto eu estou perdido, porque o Renato dá uma gargalhada e me chama mais uma vez pra jantar. Eu levanto, atordoado e o sigo até a sala de jantar.
Ele me oferece um lugar na lateral da mesa posta e pede licença entrando para a cozinha. Eu ouço a risada do Marrom de dentro da cozinha. Não consigo deixar de imaginar que eles estão rindo de mim.
Eu espero sentado sozinho com os cotovelos apoiados na mesa de madeira maciça e tento me concentrar e refletir sobre os últimos acontecimentos.
Eu ouço a voz do Renato se aproximando por trás da porta da cozinha. Ele abre a porta da cozinha, e sem entrar na sala de jantar me pede desculpas, explicando que o jantar ainda não está pronto. Segurando a porta e olhando pra dentro da cozinha ele pede que eu chame a Amanda que, segundo ele, deve estar na varanda.
Era tudo que eu queria ouvir. Eu levanto da mesa e sigo em direção à varanda, ouvindo as risadas abafadas pela porta da cozinha desaparecerem a cada passo. A Amanda está, de fato, na varanda, sentada de costas pra mim numa cadeira de junco redonda. Ela está aparentemente lendo alguma coisa e massageando a própria nuca com a mão esquerda. O rabo de cavalo está desfeito, mas eu ainda continuo apaixonado por ela. É claro que eu sou um destes sujeitos que se apaixona com facilidade demais. Eu me apaixono por qualquer mulher (entre 18 e 50 anos de idade. Mentira, confesso que entre 15 e 50. Hubert de merda.) que cruza olhar comigo. Pode ser alguém no carro ao lado no trânsito, uma recepcionista de prédio, uma caixa de supermercado, uma atriz de cinema ou de novela mexicana. È como na frase do pessoal do Casseta e Planeta: “mijou sentado e não e sapo...”. Mas o fato permanece. Eu a olho massageando a nuca e cada vez que a sua mão afasta os cabelos o suficiente para deixar a nuca aparecer, eu sinto um tesão desproporcional ao ato. Sinto-me como o adolescente do conto “Os braços” do Machado de Assis. Eu limpo a garganta. Ela se vira, apoiando o braço no encosto da poltrona de vime e me encara levantando a sobrancelha. “Ah, é você.”
Eu não consigo esconder minha mágoa. Há alguns segundos eu estava adorando a nuca dela, como se fosse a estatueta de um Deus pagão. Em retribuição ela me encara com esse ar de indiferença. Ela percebe meu desconcerto e torce a boca, cuspindo as palavras com esforço.
“Olha, eu não tenho nada contra você”. Ela se levanta e vem na minha direção. Se eu tivesse um rabo, eu estaria abanando.“O problema todo é o cabeça dura do Renato...”
Eu espremo os olhos tentando enxergar aonde a frase terminaria. Mas fico sem saber. Ela sorri um sorriso de verdade, doce, e eu sinto as minhas pernas ficarem bambas. Eu preciso falar alguma coisa impressionante agora, que ela está com as defesas abaixadas.
“Eu acho que o jantar já está na mesa.”
Tipicamente charmoso e espirituoso.
“Ótimo. Eu estou faminta!”
Ela me acompanha em silêncio até a sala de jantar. O Renato está cheirando o conteúdo fumegante de uma travessa de prata e comentando alguma coisa com uma senhora imensa, com lenço amarrado na cabeça. Eles parecem extremamente contentes.
“Olá meninos! Finalmente! A sopa de abóbora já está esfriando, sentem!”.
A Amanda dá um beijo na senhora em forma de montanha, segurando as suas mãos e se senta. Eu sento no lugar que já tinha ocupado. O Renato já está enchendo as taças com o vinho tinto de um decanter. No breve silêncio expectante, todos emanam um contentamento leve.
Segunda Parte
1.Eu acordo com o despertador. Segunda-feira. Graças a Deus, eu não preciso me levantar. Eu esfrego a planta do meu pé na sola do pé da Amanda e beijo o seu ombro. Eu ainda estou inseguro. Se não estivesse, montava em cima dela e transava loucamente com ela. Mas não vou arriscar. Ainda não sei ler os sinais dela. E o temperamento intempestivo dela sempre me assusta. Ela esfrega os olhos e senta na cama, esticando os braços como numa ola. É incrível como eu me deito com uma mulher e acordo com outra totalmente diferente. Ontem, quando eu saí do banho, a encontrei de calcinha e camiseta, de joelhos na cama, me encarando com cara de fome. Tive, obviamente, uma ereção instantânea e ela riu e me pegou com as duas mãos. Mas de manhã ela parece estar de ressaca, culpada, arrependida. Nesta, em especial, eu não me perco em autocomiseração ou especulações sobre o comportamento dela. Hoje eu vou cometer um ato de traição e não quero deixar que o arrependimento prévio me imobilize.
Hoje o Renato vai me contar sobre a sua última volta, a do presente. E como ele se recusa a me dizer porque me contratou (ele desistiu das desculpas esfarrapadas há três semanas), eu decidi, finalmente, tomar uma atitude. Fico esperando na cama até ouvir o barulho do carro da Amanda se afastando na estrada de cascalho. Eu levanto e espio pela janela. Pego o telefone e me surpreendo com o tempo que eu demoro a lembrar de um número que eu discava todos os dias.
“Alô”.
O som curto e nasal é inconfundível, mas eu confirmo.
“Arthur?”
“Esdras? Esdras seu filho da puta, onde ce ta?”
“No Vale da Cuca”
Eu me divirto com o meu tom blasé.
“Vale da Cuca? Pirou de vez? Você sumiu há mais de um mês e não manda nenhuma noticia. Sua mãe acha que você foi pra uma viagem de negócios.”
“Eu vim.”
“Que viagem de negócios? Você tem idéia do quão demitido você ta?”
Eu fico em silêncio. Eu detesto ser forçado a confrontar o efeito da minha procrastinação covarde em telefonar pro escritório. Cada dia sem ligar, a situação piorava. Até o ponto em que eu desisti e resolvi me esforçar pra simplesmente não pensar no assunto. Agora imagino que vou ter que enfrentar uma situação desnecessariamente deteriorada.
“Eu fui demitido, né?” Eu digo com a voz falhando e a temperatura do rosto elevando.
“Demitido? Olha, neste aspecto eu preciso até te agradecer. Nos primeiros dias do seu sumiço eu escutei uns quarenta xingamentos nordestinos que eu nunca tinha ouvido. E quando a Lisandra descobriu que os arquivos das propostas e apresentações, inclusive a do Banco Jóia, estavam gravadas no seu disco local – protegidas por uma senha que só você conhece – ela quase chorou de tanto ódio. Obviamente a gente perdeu a conta do Banco Jóia pra concorrência. E você sabe o quão importante era este contrato pra Lisandra. Eu, se fosse você, não aparecia por aqui. Vai que a Lisandra contrata uns jagunços do pai dela pra te dar uma lição?”
Eu lembro todas as piadinhas que a Lisandra fazia sobre o Neno Bang-bang e o Cid Malvadeza, matadores profissionais da região das Usinas do pai. Segundo ela, o pai pagava quinhentas pratas pra dar sumiço em qualquer arruaceiro. Apesar do tom brincalhão, todo mundo sabia que as estórias eram mais verdadeiras do que gostaríamos de imaginar.
“Nem brinca com isso. Olha, eu liguei pra pedir um favor.”
“Favor? Você desaparece por um tempão e não manda um aviso”
“Eu mandei a minha mãe te avisar” eu interrompo.
“Sua mãe! Você não se digna a pegar o telefone pra me ligar, sua bicha!”
“Olha, Arthur, foi mal, eu fiquei meio que envolvido com esse projeto...” eu não sei por onde começar.
“Olha, Daniel, antes que eu esqueça: vai se foder!”
Eu fico esperando ele desligar o telefone na minha cara, mas sabendo que ele não vai. Um pouco porque eu sei que ele gosta de mim de verdade, mas mais ainda porque ele deve estar morrendo de curiosidade. Ele realmente não desliga, só suspira e fala.
“Fala, seu idiota, o quê que você quer.”
O Arthur trabalha na área de database marketing e é responsável pelos programas que extraem os nomes e endereços pras malas diretas, de acordo com segmentações mercadológicas. Eu sei que a PMKT compra o banco de dado do RAS, que contem todos os dados dos contribuintes do imposto de renda. A comercialização da base do RAS é proibida, mas todas empresas que trabalham com marketing direto têm uma cópia.“Eu preciso das informações de uns nomes.”
Ele fica em silêncio por alguns segundos. ”Você lembra o que fizeram com a Clarissa, né?”
Clarissa era a antecessora do Arthur. Ela foi pega enviando pro seu email pessoal os dados da família do namorado e foi demitida sumariamente.
“Sei.”
“Então, se você quiser as informações, vai ter que me contar pra quê. Se for um bom motivo, eu dou um jeito.”
Não é tão fácil transgredir. Só o fato de contar os nomes citados pelo Renato já seria grave o suficiente. Pedir para o Arthur se meter numa potencial enrascada, pior ainda. Mas contar a estória do Renato pro Arthur já seria demais. Acho que uma mentira branca, neste caso, é mais do que justificável.
“Eu preciso confirmar a capacidade de pagamento de uns caras que estão participando deste projeto aqui.”
“Insuficiente e vago. Uns caras, um projeto. Eu preciso de mais detalhes.”
“Olha. Pega as informações que eu te conto.”
“Você é um filho da puta. Se eu for demitido vou cobrar pensão vitalícia de você.”
“Arthur. Eu confio em você. Você é um gênio do crime.”
Eu passo a lista de nomes pro Arthur. Ele diz que vai olhar à tarde e me liga de casa, à noite. Ele pede o telefone. Eu digo que não tenho e, depois de uma breve discussão, o convenço a esperar eu ligar pra ele. Como eu vou conseguir falar com ele à noite, sem chamar a atenção do Renato, da Amanda, do Marrom ou da Arlete, eu ainda não sei. Mas tenho o dia todo pra descobrir.
2.Eu desço pra biblioteca pra encontrar o Renato. É incrível como eu já me sinto em casa depois de apenas um mês. Antes de me encontrar com ele, no entanto, eu passo na cozinha pra fazer uma boquinha. A Arlete está sovando uma massa e oferece a bochecha gorda para um beijo. Eu dou um beijo estalado, infantil e ela se derrete num sorriso. “Isso são horas? Vocês ficam namorando até tarde e a pobre da Amanda se atrasa e tem que sair correndo sem tomar café da manhã.” Ela fala tentando simular um tom de sermão, enquanto eu assalto a geladeira. “Ela que é preguiçosa e fica enrolando na cama!”. Eu falo a mentira óbvia (a Amanda é certinha demais e eu já sou o preguiçoso oficial do Vale) com a boca cheia do estonteante bolo de aipim da Arlete. Ela me ameaça com o rolo de massa. Eu saio fingindo uma fuga em direção à biblioteca.
O Renato está lendo o primeiro manuscrito da sua biografia. Eu confesso que não acreditava ser capaz de escrever tanto em tão pouco tempo. E confesso também que me surpreendi com a qualidade deste primeiro draft. É claro que o maior mérito é do próprio enredo. A estória do Renato é fantástica e obviamente mentirosa, mas não deixa de ser envolvente. Ele quis uma biografia não convencional. Sem releituras excessivas e sem a mácula do conhecimento dos eventos subsequentes. Ele quer uma biografia factual, em primeira pessoa e que coloque o leitor no tempo dos eventos, com o mesmo conhecimento que o autor tinha a cada momento. Por isto ele está me contando tudo aos poucos sem dar pistas sobre a conclusão dos eventos. Exceto o fato de que o relato vai terminar com um sujeito jovem sozinho numa cidadezinha da serra carioca rodeado de empregados e sem laços afetivos aparentes, narrando a sua estória pra mim.
Eu entro na biblioteca e ele levanta os olhos do manuscrito com um sorriso. “Excelente. Parece que eu estou assistindo a minha vida no cinema, interpretada por um ator totalmente diferente de mim. Os fatos e os eventos são os mesmos, as reações do protagonista são familiares, mas diferentes. É incrível como eu não pensei ou senti as coisas que você escreveu.”
Eu não sei se isso é um elogio. “Você quer que eu reescreva?”
“Não, não. De forma alguma” ele abre um sorriso, “era exatamente isto que eu queria. Uma releitura”.
“Você já terminou a revisão? Quer continuar?”
“Você ainda não acredita.” Ele me encara.
“Não muito” eu confesso um pouco desconfortável. Apesar de esta ser a resposta óbvia, de certa forma, ao dizê-la me sinto um ingrato. “Eu só não consigo entender porque você me escolheu.”“Você foi a inspiração para esta minha biografia.”
Muso. Nada mais gay ou idiota. Segundo o Renato, foi lendo um livro escrito por mim que ele decidiu que iria me pedir para escrever sua biografia. Obviamente, isto foi na sua segunda volta e, portanto, ainda não teria acontecido nesta vida. É uma estória confusa, que fica um pouco mais clara depois de ler a sua biografia. De qualquer forma, é só mais uma mentira deslavada.
“Eu escrevi um livro que te inspirou...” eu torço o nariz.
“Teria escrito. Mas alguma coisa que eu fiz mudou isto...” Ele fica pensativo.
“O tom da sua narração é exatamente como eu lembrava. Mas falta alguma coisa. Nesta primeira parte do livro há melancolia em excesso. Falta humor e...” Ele aperta os olhos procurando uma explicação. “Compaixão. Não. Amor, eu acho”.
Eu me sinto desapontado e frustrado. Confesso que eu me orgulho muito do que escrevemos até agora. Normalmente eu me desculparia para cavar um elogio. Mas eu estou genuinamente ferido.
Ele se levanta.
“Antes de revisarmos, porque a gente não vai até o rio?”
O Rio das Pedras é meu lugar predileto do Vale da Cuca. É um rio relativamente pequeno, de águas geladas e transparentes que escorregam ao redor de pedras lisas de diversos tamanhos e tons. A entrada para o rio fica atrás da casa, onde o rio forma uma piscina natural. Na margem desta piscina natural, uma pedra achatada convida a sentar e ouvir as águas chegando à piscina natural por uma cascata e saindo dela num desnível suave. Esta pedra achatada está coberta de minúsculas flores amarelas que caem das árvores ao seu redor.
Eu sento ao lado do Renato que fica em silêncio catando sementes e flores distraidamente. Nós ficamos em silêncio. Eu adoro a sensação de poder ficar em silêncio sem desconforto. Mas depois de alguns minutos.
“Se você acredita mesmo na sua estória, porque você não procura a Camila de novo?”
Ele não responde. Fica observando os detalhes de um dos caules das flores.
“Eu não agüentaria...” ele faz uma pausa e muda de assunto. “Olha, eu estou gostando muito do seu trabalho.”
“Eu também. Mas confesso que ainda me sinto um impostor. Você tem certeza que eu devia estar redigindo a sua biografia em primeira pessoa?”
“Absoluta.”
Nós ficamos conversando sobre detalhes do draft até a hora do almoço. Depois do almoço o Renato diz que precisa ir até Teresópolis. Eu fico sozinho na casa, revisando o manuscrito.
Terceira Parte
1.
Acontece depois de uma noite sem sonhos. Eu abro os olhos e, inicialmente, não me surpreendo com o fato do quarto estar iluminado. Eu fecho os olhos e abro de novo. Eu cerro os olhos e tiro um menir de remela com a ponta os dedos. Eu sinto minha boca seca, meu estômago vazio, minha cabeça pesada e uma ereção matinal dolorida. Eu fecho os olhos e sinto dentro da cueca. E aí, com uma carga de adrenalina, eu realmente acordo. E tudo que está errado desaba numa torrente que sobrecarrega meus sentidos. O quarto é familiar, mas não é o quarto da minha casa. Eu não durmo de janela aberta nunca. E, principalmente, eu tenho muito mais pentelhos do que isto. Eu sento na cama com o coração palpitante. Meus pés mal alcançam o chão. A luz que vem da janela é uma luz oblíqua de manhãzinha de verão. Antes das batidas cardíacas desacelerarem, eu levo um susto que, não fossem as circunstâncias bizarras, me levariam certamente a um infarto fulminante.
Minha mãe, linda, jovem e de camisola entra no meu quarto. Linda, linda, linda. Como eu nem lembrava. Eu a encaro boquiaberto. Ela levanta as sobrancelhas e pergunta levemente irritada se eu já não devia estar vestido. Sai do meu quarto falando que eu vou perder o ônibus.
Eu tenho doze anos. Mas eu não tinha ontem quando adormeci. Minhas memórias se confundem e eu tenho dificuldade de manter os pensamentos nítidos. Eu estou atrasado pra escola, mas eu acho que eu já saí da escola. Eu acho que eu lembro da minha festa de formatura. Ou foi a formatura de um primo? Não sei, mas eu acho que até já me formei na USP. Não, não. A USP é em São Paulo e eu moro no Rio de Janeiro. Eu tento pensar claramente, mas eu estou quase molhando as calças. Eu levanto e vou até o banheiro. E aí levo o segundo grande susto.
Eu tenho 12 anos mesmo. Eu sou inberbe e cabeludo. Claro que sim. Acho que eu vi um filme sobre um sujeito mais velho. Ou uma novela. E o protagonista era eu. Ou era parecido comigo quando eu crescesse. Engraçado eu não lembrar do rosto dele, apesar de lembrar nitidamente de todo o resto. Eu estou atrasado pra escola. Eu termino de me arrumar e vou correndo até o ponto de ônibus.
2.
A felicidade que eu sinto quando entro na minha escola é tão desconcertante que eu sinto alfinetadas dentro do nariz. Prenuncio de lágrimas incontroláveis. Eu enxugo os olhos com a manga do uniforme e atravesso o pátio central, deslumbrado com a enorme mangueira que implode o concreto do chão com a força das suas raízes.
Quando eu entro na sala, meus amigos, com cara de sono, me cumprimentam friamente. Eu tenho uma vontade estranha de abraçar todo mundo. O sinal toca e todos sentamos. O Alexandre, nosso professor de história entra na sala nos cumprimentando com sua voz de tenor: “bom dia, senhores”.
A aula é sobre a Independência do Brasil e ele começa distribuindo uma charge do Miguel Paiva sobre o tema. A charge mostra dois sujeitos observando um terceiro comemorando em altos brados a Indenpendência. O primeiro comenta “O que será isto?” ao que o outro responde “Deve ser um novo produto importado”. Eu sinto uma estranha sensação de deja vu. O Alexandre pergunta se alguém se voluntaria a interpretar. Todos olham pra mim. Eu fico vermelho. Eu começo a articular uma resposta, mas num instinto, me calo. Meus amigos me olham perplexos e expectantes. O Alexandre inclina a cabeça pro lado, como que me procurando. “Caleb?” Eu levanto as duas sobrancelhas em sincronismo com os ombros. Eu olho em volta. O Eduardo finalmente rompe o silencio e apresenta sua interpretação tosca, não, pueril da charge. A aula segue normalmente.
No final da aula, no entanto, o Alexandre pede pra falar comigo. Eu consinto e sigo-o até a sala dos professores. Ele me olha com um sorriso inquisitivo.
“Tudo bem Caleb?”
“Ótimo.” É verdade.
“Você ficou mudo na aula de hoje.”
“Não queria parecer um puxa saco. Além disto eu acho que às vezes eu intimido os outros e dificulto a participação deles na aula.”
O professor deixa o queixo cair. Examina-me mexendo a cabeça, como que procurasse uma fenda ou um defeito qualquer no meu rosto. Eu simplesmente sorrio.
“Acho que você precisa se preocupar com você e deixar eu me preocupar com o resto da sala.” Ele tem um tom ofendido que eu não consigo determinar se fabricado ou não.
O sinal toca e ele me manda voltar pra sala.
Eu acompanho a aula de matemática com a facilidade habitual. Eu sempre fui bom aluno. Mas quando o professor distribui exercícios eu me assusto com a velocidade com a qual resolvo tudo. Em pouquíssimos minutos eu entrego a folha preenchida para o Professor Miguel. Quando eu me aproximo, ele me pergunta qual o problema. Eu respondo que nenhum e entrego os exercícios. Ele encara o papel mimeografado incrédulo e me parabeniza.
No recreio eu me esbaldo com uma coxinha de frango gordurosa e uma coca-cola (estranho o fato da máquina nem ter coca diet). O Flavio está no pátio mostrando pra todos seu novo brinquedo. É um walkman e ele está mostrando como trocar o lado da fita k7 sem tira-la do aparelho. Alguma coisa está errada com este aparelho, mas eu não consigo identificar o que. Ele pergunta se eu quero ouvir um pouco e eu respondo que sim. Eu ouço um trecho de Up where we belong do Joe Cocker e me disparo “toca mp3 também?”. O Flávio me olha e pergunta “o Quê?”, mas eu não lembro mais de onde tirei esta pergunta e resolvo deixar pra lá. Ele fica um pouco ofendido e comenta, na defensiva, que com certeza o aparelho toca petrês, mas ele não gosta muito.
Primeira Parte 2
1.
A sopa de abóbora é realmente divina. Eu me policio para não fazer barulho e não babar. O Renato me olha com um sorriso e fala enquanto sopra uma colherada de sopa “deliciosa, né?”Eu respondo que sim e ele me conta que a receita é secreta, mas que ele vem tentando descobrir todos os ingredientes há vários anos. Ele já descobriu o gengibre, o bacon e o maracujá. A Amanda corrige dizendo que não é maracujá e sim laranja. Eles discutem entre si e eu observo, completamente contente.
Pelo menos até a Amanda começar.
“Então, Sr. Esdras, conte um pouco da sua experiência pra gente.”Eu não fico intimidado. Cruzo os olhos com o Renato, que vira os olhos numa expressão de zombaria. De alguma forma totalmente inexplicável, parece que eu e ele somos amigos de longa data, quase irmãos, implicando impunemente com a irmã mais nova.
“Eu não tenho nenhuma experiência como escritor.” Faço uma pausa para conferir a expressão de aprovação do Renato. “mas imagino que sua investigação já tenha revelado este lapso na minha formação”. Eu carrego a palavra investigação de sarcasmo e me surpreendo com minha ousadia atípica.
“Eu estou me referindo à sua experiência profissional” Ele retruca com ar de nonchalante.
“Ah.” Eu sinto minhas bochechas esquentarem e depois queimarem quando me dou conta que elas estão esquentando. “Eu trabalho numa agência de marketing direto, como você sabe.” Eu falo isto como se estivesse assumindo um crime hediondo.
Ela espera um complemento. O Renato se recosta, na expectativa de uma elaboração.
“Eu sou gerente de criação.” Eu procuro uma forma adequada de explicar. “Mas na verdade eu faço as propostas de campanhas de venda, baseadas num modelo que eu desenvolvi há seis anos. Meu trabalho é qualquer coisa, menos criativo.”
A Amanda vira para o Renato e só levanta a sobrancelha na expressão universal de eu-não te-disse?
Ele ignora o gesto dela e olha pra mim pensativo. “Como diabos você foi parar numa empresa de marketing direto?”
É uma boa pergunta.
“Acho que não foi exatamente uma decisão, foi circunstancial. No início era pra ser um bico, pra juntar uma grana e viajar um pouco, sair de perto de tudo e de todos. Eu acho.”A Amanda não se dá por vencida pela indiferença do Renato. Eu entrei na festa sem roupa e ela se preocupando em me desmascarar.
“E como você pretende escrever um livro? Baseando-se em um modelo de mala direta ou em um roteiro de infomercial?”
“Depende do assunto.” Eu respondo mais afiado do que eu jamais desconfiei ser capaz. “Eu ainda não sei nada sobre este tal livro que eu supostamente vou escrever.”
“Ele não...Você ainda não contou pra ele?” Ela vira pro Renato, genuinamente curiosa.
“Eu comentei superficialmente. Mas ainda não entrei em detalhes. Amanhã, depois do café da manhã nós vamos passear pelo Rio das Pedras e eu vou contar detalhes do projeto.” Ele limpa a boca com o guardanapo de pano e levanta-se. “Vocês dois comportem-se. Boa noite.” Ele passa na cozinha e dá um sonoro beijo na cozinheira antes de subir pro quarto.A Amanda está claramente transtornada. Ela coça a ponta do nariz, arruma o cabelo atrás da orelha compulsivamente e com um sorriso azedo pergunta se eu preciso de mais alguma coisa.
Eu tenho uma vontade assustadoramente intensa de pedir pra ela vir pra cama comigo, mas felizmente resisto e evito fazer papel de idiota na minha primeira noite no Vale da Cuca.
2.
Quando eu subo pro quarto eu ponho meu pijama e quando vou escovar os dentes descubro que esqueci de trazer pasta de dente. Eu soco o granito da pia até ficar com a mão dolorida me xingando de idiota por entre os dentes. Tudo o que eu precisava era acordar de manhã e cumprimentar todos com um bafo de onça.
Eu ando de um lado pro outro como se alguma idéia brilhante pudesse botar espontaneamente a partir de um movimento repetitivo. Dane-se. Eu abro a porta do quarto e desço pra cozinha. Talvez a Arlete ainda esteja acordada.
Infelizmente está tudo apagado. Eu entro na cozinha tateando a parede e tenho que engolir um urro de dor quando dou uma canelada no balcão. Eu abro a geladeira para usar a sua luz e me localizar. Deve haver alguma dispensa aqui embaixo.
“O jantar num tava bom, não?”
A figura da Arlete iluminada pela luz da geladeira e contornada pela penumbra é quase caricata. Ele está vestindo um camisolão e uma touca e está de braços cruzados sobre a região onde os seios se camuflam na barriga. Eu fico paralisado como um fugitivo capturado e, sem refletir, levanto os braços em rendição.
“Num comeu direito e agora vai assaltar a geladeira, né?” Ela está simulando uma bronca.
“Na verdade eu queria uma pasta de dentes.”
Ela dá uma risada e fala pra eu trazer a minha escova que ela passa um pouco da pasta dela. Eu subo, pego a minha escova e desço as escadas correndo. Ela sugere que eu escove os dentes na área de serviço e já passe mais pasta para a manhã. Enquanto eu escovo os dentes ela fica em pose de cegonha me examinando de cima a baixo.
“Você vai trabalhar pro seu Renato?”
“Afxo que xim” Eu respondo com a boca cheia de espuma de menta.
“Ele tava uma espoleta com a sua chegada. Ficava andando de um lado pro outro que nem moleque. Me apertava a bochecha e dava beijo e logo depois ralhava por qualquer bobagem. Eu até falei pra ele que ele tinha era que casar de novo. Mas é só eu começar a falar em casamento que ele fica uma arara. Mas ele fica mantendo essa menina aí e como os caboclo diz num caga nem sai da moita. Eu acho errado, viu. Mas num gosto de ficar falando da vida dele não, que ele é um menino de ouro, viu. Tem um coração que só vendo. Sabe que ele pagou escola pra meninada toda lá de casa em escola particular? E no Rio, viu, no Rio de Janeiro mesmo e em escola de gente fina mesmo. Comprou até roupa e tudo pra molecada. Minha mais velha que fica lá; ele falou pra eu ficar lá mas eu tenho medo do Rio, viu, tem muito bandido lá. É tiro e droga e tudo. Mas pras crianças é melhor que o seu Renato disse, e ele sabe bem mais que eu que num sei nada, né?”
Eu já enxagüei a boca. “Aposto que você sabe é um bocado.”
“Eu sei é limpa chão, privada, janela, fazer feijão...”
“E sopa de abóbora com capim cidreira...”
Ela abre a boca estupefata. “O desavergonhado do Marrom te contou, num foi?”
Eu sorrio, ponho a pasta na escova, digo boa noite e vou pro quarto. A Arlete com uma agilidade inesperada pra alguém com seu peso ainda tem tempo de se virar e me dá uma palmada de mão cheia.
Eu subo as escadas rindo sozinho e com uma banda da bunda formigando do tapa. Realmente, eu já me sinto mais em casa aqui do que na minha casa.
Segunda Parte 2.
1.
Eu estou sentado no escritório, encarando o manuscrito. Eu balanço os pés, impaciente, sem conseguir me concentrar nas palavras. Eu folheio o bloco impresso. Os nomes das pessoas envolvidas na biografia saltam das páginas, como sereias, me convidando pra minha perdição. Eu vou até a cozinha tomar um copo de leite e comer um pedaço de bolo de aipim. Ando um pouco pelo gramado, apreciando a dança das árvores na montanha, cada camada de árvores balançando numa freqüência, como ondas num mar cenográfico.Eu tento não pensar no Arthur ou nos nomes que eu pedi para ele verificar, mas não consigo. Já são seis e meia e ele deve estar chegando em casa.
Eu sento e levanto da grama cinco vezes em dez minutos. Mexo nos ramos de alecrim plantados ao lado da casa, e sinto o seu cheiro subindo. E finalmente, tomo coragem, corro pra dentro da casa e disco o número do Arthur.
“Arthur”
“Oi.”
“Conseguiu o que eu te pedi”
Uma pausa longa.
“Claro, Daniel, conforme combinado.”
Claro, Daniel, conforme combinado? Que diabos é isto? Porque o Arthur está falando deste jeito.
“Arthur, tudo bem?”
“Excelente, obrigado por perguntar. Onde você está mesmo?”
Estranho.“Você tem os contatos dos nomes que eu te passei ou não?”
“Eu gostaria de entregá-los pra você, pessoalmente.”
“De jeito nenhum! Você ficou louco? Como eu vou explicar isso pro Renato?”
“É verdade.” Ele tem um tom resignado na voz. Alguma coisa está seriamente errada.
Eu pego uma folha de papel e uma caneta.
“Fala”
“Eh, você falou Vale da Cuca, né?”
“Porque?”“Acho que você devia sair daí o mai”
A ligação cai. Eu disco novamente, mas o telefone está ocupado. Eu começo a ficar inquieto. Que diabos aconteceu com o Arthur? Ligo mais algumas vezes, mas sem sucesso.
2.
Eu fico sentado no braço da poltrona, encarando o telefone. É como se eu pudesse hipnotizar o aparelho e faze-lo tocar. O Arthur deve estar aprontando alguma brincadeira. Eu gosto do Arthur, mas nossas brincadeiras idiotas ficam especialmente infantis em retrospecto. Eu lembro dos nossos diálogos repetidos com uma certa nostalgia condescendente. Como se só eu tivesse crescido, aprendido a ser um adulto e o Arthur permanecido uma criança, sozinho no escritório.
Eu tento formular hipóteses, mas estou mergulhado numa estranha letargia. Eu só percebo quanto tempo fiquei congelado na mesma posição quando ouço o barulho já familiar do carro da Amanda estacionando.
Eu desço para recebe-la como um moleque tentando encobrir alguma arte. Eu abro a porta antes dela conseguir virar a chave na fechadura e sorrio sem conseguir controlar um rubor repentino.
“Oi.” Ela diz plantando um beijo no meu lábio e seguindo pra cozinha.
“Oi” eu respondo quase sem emitir som e a sigo mantendo uma respeitável distancia.
Ela enche um copo de água e bebe às goladas, me encarando por cima da borda.
Ela faz um “Ahh” nada feminino, espreme os olhos mordendo o lábio inferior e apoiando a mão na cintura. Ela dá um sorriso e diz, vindo em minha direção.
“Nem pensar coelhinho. Hoje a gente vai jantar lá no Renato.”
Coelhinho? O fato de ela imaginar que eu estou querendo sexo me alivia e constrange ao mesmo tempo. Eu me sinto incrivelmente inferiorizado. Por ser um mentiroso e, talvez mais ainda, por tão pateticamente um mendigo por atenção e carinho.
“No Renato.”
“Ele não te disse nada?”
Eu gosto muito do Renato. De verdade. Mas o prospecto de encontrá-lo dispara numa rajada de adrenalina a lembrança da conversa com o Arthur. Eu engulo seco querendo ter a habilidade do Renato de voltar no tempo e desfazer o pedido que eu fiz ao Arthur.
3.
No caminho pra casa do Renato, a Amanda é minha namorada. A sensação é boa e assustadora. Ela entrelaça os dedos com os meus e faz piadinhas carinhosas pontuadas por beijos e xingamentos carinhosos. Ela arruma os cabelos atrás da orelha, me chama de idiota e eu tenho uma ereção. Ela ri como uma menina e anda quase saltitando. Solta e feliz ela fica vulnerável e eu, involuntariamente, aproveito a baixa da sua defesa. Seu caminhar aos pulinhos fica ridículo. Eu acho sua voz fanhosa demais. Seus caninos trepados nos incisivos já não parecem tão charmosos. Eu não consigo mais localizar exatamente onde reside a natureza hipnótica dos seus olhos castanhos. Mas ela percebe a minha ereção e me lembra que a minha mente crítica anda bem descolada da minha libido. Ela me ri e eu devolvo, feliz de reentrar na cortina do encanto.
Quando chegamos na porta da casa ela arruma a saia e fica séria. Ela toca a campainha e me olha sorrindo. Por um momento meu terror em encontrar o Renato depois de passar os nomes pro Arthur é substituído por um ciúme visceral. Eu quero estrangular o Renato e arremessar a Amanda no chão, humilhar os dois. Sinto-me um intruso, um impostor. Eu começo a queimar de ódio e despeito, indignado pelo amor não correspondido da Amanda ao Renato. Eu tenho vontade de virar as costas e ir embora sem explicações. À moda Flitcraft, sem dizer adeus. Mas aí o Renato abre a porta com o seu habitual sorriso e de braços abertos. Eu aceito o abraço depois da Amanda, mesmo que ainda com autoconsciência excessiva. Meu ciúme se dissipa em admiração de irmão caçula. Não, de filho. De filho traidor, bem seja dito.
Eu começo o jantar com medo de me embebedar e me entregar. Mas baixo a guarda depois da primeira taça de vinho tinto. Durante o prato principal, o Renato promete uma leitura de trechos da biografia na sala de estar. Ele me encara com cumplicidade e eu quase explodo de satisfação. Que carência patética. Coelhinho. Eu quero e não quero que a Amanda ouça a leitura.
Todos se arrumam no sofá, inclusive a Arlete e o Marrom, que mal conseguem conter sua agitação e ficam rindo como duas crianças se cutucando no sofá.
O Renato dá dois petelecos na taça de cristal, pedindo silêncio. Quando ele vai começar a ler, o Marrom interrompe:
“Vocês ouviram isto”
Todos inclinam a cabeça, apertam as pálpebras e levantam os olhos para uma diagonal imaginária. É o som de um carro se aproximando. Todos olham pro Renato. Ele encolhe os ombros e pede pro Marrom dar uma olhada. Ele levanta e anda acelerado em direção a cozinha. Ele pega uma jaqueta e sai pela porta da frente. Aquilo enrolado na jaqueta era uma arma?
Terceira Parte 2
1.
“Eu tenho tido umas sensações muito estranhas.”
“São os hormônios.” Meu pai responde enquanto se levanta de debaixo da pia, com um grunhido. “Abre a torneira de novo.”
Eu abro a torneira e espero. Meu pai encara o sifão numa atitude de vitória antecipada, até o gotejamento recomeçar.
Num gesto de estoicismo extremo, ele enfia o alicate na caixa de ferramentas sem reclamar ou xingar e empurra com o pé direito a bacia pra debaixo do sifão.
“Arlete” Ele grita “não funcionou.”
“Esta infiltração vai continuar assim até a gente se mudar daqui.” Eu digo sem pensar muito.
Meu pai me encara pensativo. “Acho que você está sendo muito pessimista”. Ele diz resignado.
Eu penso em explicar, mas desisto antes de começar. “Sabe quando você fica fissurado numa música e não consegue tirar ela da cabeça?”
Meu pai começa a cantar uma vinheta de comercial. Eu ignoro e continuo. “Eu tenho tido esta sensação o tempo todo.” Meu pai está de costas, arrumando o armário de ferramentas.
“Qual música?” Ele pega uma chave de pressão e volta com um sorriso malicioso em direção à cozinha. Eu sabia que ele não desistiria tão facilmente.
“Então. Tem esta música que eu não lembro onde eu ouvi. Aliás, o Denis disse que esta musica não existe. Mas não é só a música.”
“O Denis que anima festinhas de discoteca?”
“Hi-fis”
“Hi-fis” Ele repete com tom empostado.
“É. Este Denis. Mas tem também imagens de filmes que eu lembro nitidamente, mas não consigo achar o filme. E uns pesadelos estranhos.”
“Molhados?”
“Você ta prestando alguma atenção no que eu estou dizendo, ou você não é multitask o suficiente pra apertar um sifão e escutar uma estória do seu filho ao mesmo tempo.”
Meu pai tira a cabeça de debaixo da pia. “Multitask?”
“Sei lá.” Eu já estou impaciente demais. Tenho vontade de arrancar a ferramenta da mão dele e acertar com ela em cheio na sua testa.
Eu sonhei de novo com a cena dos aviões atingindo os prédios. A cortina de poeira e fumaça, as pessoas correndo, os bombeiros. Eu fiquei fixado no número 911 neste sonho. O Flávio falou que obviamente era o número de emergência nos Estados Unidos. “Nine one one” ele disse pomposamente se exibindo para a Alessandra. “Nine Eleven” eu corrijo e ele me olha azedo.
2.
A surpresa mesmo foi na festa do Jaime. Eu segui ele e um grupinho seleto pro quarto. Ele conectou o seu moderníssimo sintetizador DX-7 e o Gigio botou o violão no colo. As meninas ficam extáticas de antecipação. O Jaime faz uma demonstração completa do órgão com toda a gama de sons irritantes antes de começar a tocar um ritmo pré-programado e as notas iniciais de Wish You were here. As meninas fazem simulam sons de assobio de tietes. Eu vejo o Gigio arranhar os acordes de base no seu violão DiGiorgio. Eu acompanho murmurando a versão desafinada dos dois. Quando eles terminam e as meninas começam a sair eu sento na cama do Jaime, ao lado do Gigio e vejo ele dançar seus dedos curtos simulando um solo sem emitir som. Eu pergunto se ele pode me emprestar o violão. Ele parece ofendido com a pergunta. É como se eu tivesse pedido sua cueca emprestada.
“Se você não sabe tocar, vai desafinar.”
Normalmente eu não discutiria, mas desta vez eu insisto. “Prometo que eu não vou desafinar.”
O quarto já está mais vazio. O Jaime sai do quarto advertindo que ninguém deve TOCAR no teclado. Eu ponho o violão no colo. Ele parece gigante. Eu sinto as cordas com os dedos da mão esquerda. Eles desliza pelas cordas e assumem formatos de acordes. Eu começo a dedilhar com o dedo direito. É verdade que eu não toco como um virtuose. Muitas notas saem abafadas ou trocadas, mas eu surpreendo a todos (inclusive eu mesmo) com uma versão dedilhada simples de “Hey Joe”, do Jimmy Hendrix, por um simples motivo: eu nunca toquei num violão antes. O Gigio fica me encarando incrédulo, boca aberta, com a mágoa de quem foi enganado enchendo seus olhos d’água. O Jaime volta pro quarto e pergunta se eu sei tocar Wish you were here. Eu respondo afirmativamente e acompanho sua versão sofrível com incrível facilidade.
3.
O Festival de música da escola é um daqueles eventos de avaliação subjetiva. Para qualquer observador externo é só mais um daqueles eventos obrigatórios que os pais são obrigados a se submeter. Cada pai suporta bravamente quatro horas de performances sofríveis para poder testemunhar o sofrimento infligido aos outros pais pelo seu próprio rebento, durante míseros cinco minutos. Para os filhos, por outro lado, é o momento definidor de suas vidas. Nele haverá a ratificação dos estigmas. Os nerds vão participar de corais com seus cabelos engomados e camisas abotoadas até o pescoço e os cools vão montar suas bandas pop com penteados exagerados e camisas abertas sobre os peitos púberes.
Para mim, o festival de música representou muito mais do que a confirmação do meu recém adquirido status de cool. Ele definiu completamente os meus anos seguintes ao som de “Tremedeira numa Noite Quente”.
Não foi fácil convencer o Jaime a abandonar Wish You Were Here por uma música de composição minha. Somente depois de ensina-lo a solar no teclado com o arranjo de Tremedeira numa Noite Quente que ele começou a amolecer. No livreto do festival, imprimiram “Jaime Nigri e Renato Caleb: Tremedeira numa Noite Quente (letra e música Renato Caleb)” com a letra da balada impressa abaixo. Meu pai leu o livreto incrédulo, com o nariz torcido e possivelmente com algum receio. Minha mãe beijou minha testa e me deu parabéns, sem imaginar o quanto esta música ainda faria por ela.
No dia D eu entrei no palco mais confiante do que imaginava possível. O Jaime arrumava incessantemente seu cabelo e acenava para a platéia, com postura de galo de briga. Quando a luz do holofote apontou pra mim eu comecei a dedilhar a introdução melada da música. O público aprendeu o refrão e acompanhou já na terceira vez. Como era de se esperar, o primeiro lugar ficou para o coro interpretando uma peça de Vila Lobos. Nós não recebemos sequer a menção honrosa, mas durante semanas fomos congratulados e ouvimos a baladinha romântica sendo cantarolada pela escola.
4.
É provável que eu tenha tido centenas de outras memórias futuras. Mas todas ficaram perdidas ou ofuscadas pela comoção causada no final do ano seguinte. Os Vira-latas já eram famosos com um ou dois hits tocando nas rádios. No dia dez de novembro de 1984 eles cantaram, num show no Maracananzinho, seu novo lançamento. Tremedeira numa noite quente foi um hit imediato. A platéia do Maracananzinho foi ao delírio e pediu bis, raridade para lançamentos.
No domingo de manhã, o Jaime me liga antes das oito da manhã.
“Já ouviu? Já ouviu? Já ouviu?” Ele parece em transe.
“Jaime?” eu falo sem abrir os olhos.
“Já ouviu? Você já ouviu, porra?” A voz dele tem tom de irritação.
“Ouviu o quê, seu louco?” Eu entro na defensiva enquanto percorro a memória por alguma obrigação que eu teria assumido com o Jaime.
“Eles tão tocando a nossa música. Igualzinha. Ta tocando na Transamérica direto desde ontem...” Ele parece que vai chorar.
“Eles quem? Que música?”
Ele começa a me explicar, mas interrompe agitado. “Ligorrádio. Ligorrádio!”
“Eu não tenho rádio no quarto.” Eu respondo exasperado.
Ele aumenta o volume do seu e eu ouço, abafado pela linha telefônica, o Polé, vocalista dos Vira-latas, repetindo chorasamente o refrão da música que eu compus.
Ou não compus?
Primeira parte 3
Há alguns anos, um sujeito escreveu um livro sugerindo que a melancolia generalizada no mundo moderno é resultado do excesso de opções. A tese era mais ou menos a seguinte: nós atribuímos valores diferentes a cada alternativa; quando escolhemos a mais valiosa, sempre o fazemos em detrimento das demais. Até aí, tudo bem. O problema é que ao invés de compararmos o valor da nossa escolha com a segunda melhor, sentimos que perdemos a soma de todas as opções restantes. Portanto, segundo o autor, quanto mais opções, maior a sensação de perda. Acho que, em síntese, é isto. Mas não tenho certeza. Nunca li o livro. Nem pretendo ler.
Mas quando li sobre este livro numa resenha, me reconheci instantaneamente. Eu conhecia bem a dor e a frustração da perda dos caminhos não percorridos, mesmo quando o percurso que escolhi era claramente o melhor. Lembro bem da ambigüidade que senti em ler o artigo. Eu adorei sentir aquele “clic” delicioso de me encontrar num texto, um reconhecimento que lembra um reencontro com um velho amigo. Ao mesmo tempo fiquei deprimido, porque tive que dividir o que parecia, até então, uma angústia intima e pessoal, com milhões de pessoas da minha faixa etária.
O artigo ficou me incomodando durante alguns dias, mas naqueles dias eu ainda não podia sequer imaginar o quão profundamente eu veria esta teoria ser posta à prova.Pronto. Depois deste último parágrafo parece óbvio que o relato vai descambar pra uma estória do tipo “experiência definidora”. O formato é banal e tem origem imemorial.1. Primeiro é apresentado um protagonista com uma inclinação caricata de caráter: muito egoísta, muito ingênuo, muito cínico, muito cético, muito romântico ou muito qualquer outra coisa.
2. Depois vem o “life changing event”: a descoberta de um câncer terminal, um tiro que mata a esposa que surpreende o marido numa festa surpresa, uma abdução por alienígenas protologistas ou um milagre de Natal.
3. Finalmente, o protagonista é reapresentado após sua metamorfose.O único problema é que não existem “estórias definidoras”. As pessoas sempre são o que são.Eu vivi meses surpreendentes, beirando o surreal. Fui obrigado a redefinir minha visão de mundo; mas emergi de toda a experiência essencialmente o mesmo. Um dia ouvi um repórter comentar com o Brian Green, um físico famoso, sobre seu livro a cerca da complicadíssima teoria das supercordas: “tudo que você escreve faz muito sentido... até o momento em que eu tiro os olhos do livro”. Eu entendi perfeitamente o que ele quis dizer. Durante minha estadia no Vale da Cuca, tudo fez perfeito sentido. Quando eu voltei pra casa não consegui reencontrar as verdades que lá pareciam tão auto-evidentes.Quando eu tinha oito anos eu entrei no mar da praia de Copacabana, em frente ao guarda sol laranja fincado na areia pelo meu avô. Eu brinquei durante o que me pareceram horas sem perceber que a correnteza havia me afastado do guarda sol. O calafrio de pânico repentino que eu senti, quando me dei conta de onde estava, foi idêntico ao que eu senti ao perceber o quanto, depois da minha volta, minha rotina havia retomado conta de mim sem que eu percebesse.
Escrever me parece a melhor forma de tentar revisitar os incríveis eventos dos últimos meses e quiçá recuperar o sentido perdido. Mesmo que eu não consiga me salvar do afogamento da minha antiga rotina, pelo menos deixo registrados os meses mais estranhos da minha vida.
Primeira parte 1
1
Quando tudo indicava que eu seria irremediavelmente sugado ao meu deserto dos Tártaros pessoal, o acaso me resgatou. Dizem que “sorte é quando a oportunidade encontra o preparo”. É uma ótima máxima para campanhas motivacionais de empresas, mas sem nenhuma relação com a verdade. A sorte bateu na minha porta, ou melhor, tocou meu telefone sem que eu estivesse minimamente preparado. Aliás, a única coisa para a qual eu estava preparado era a inércia.
“Alô.” Eu atendo impaciente. Já imagino a voz da minha mãe reclamando das dores e perguntando se eu estou namorando. Ou pior ainda, o texto recitado de uma operadora de televendas, a ironia suprema.
“Sr. Daniel Esdras?”
A voz é feminina, mas a entonação é muito dura e assertiva para uma operadora de telemarketing. Operadoras sempre têm uma voz nasal e terminam a frase com um alongamento da última vogal (Sr. Esdrãaans?) irritantemente solicito.“Quem gostaria?”
“É ele quem está falando?”
Segunda-feira, atrasado pro trabalho e alguma desconhecida fica tentando forçar minha identificação positiva pra me vender uma coisa que eu certamente nem preciso nem quero. É uma das circunstâncias mais propícias para desligar o telefone na cara de alguém, mas ao invés disto, eu intensifico o tom de irritação. “Olha, querida, falar no telefone é bem simples. Quando você me liga, VOCÊ se identifica, não o contrário. ”
“Desculpe. Meu nome é Amanda Demiers.”
A resposta tem um tom mais surpreso do que ofendido. Mas de qualquer forma acho que fui desnecessária e inconseqüentemente rude. Amanda? Eu vasculho a memória sem sucesso.
“Amandaaa...”
“Demiers. O Sr. Não me conhece.”
Espero que não seja alguém importante. O remorso traz a esperança de que seja algum pedido de doação para a Casa dos sete arco-íris ou coisa que o valha. Por segurança tento remediar a grosseria com cordialidade.
“Você.”“...”“Por favor, me chame de você.”
“Ah.. Eu sou advogada e represento o Sr. Renato Caleb. Estou ligando em nome dele.”“Renato Caleb?”
“Meu cliente pediu pra que eu entrasse em contato com o senhor. Ele gostaria de lhe fazer uma proposta.”
“Uma proposta?”
Idiota, como eu sou idiota. “falar no telefone é bem simples...” Idiota.
“De trabalho. Mas o Sr. Caleb gostaria de discutir esta proposta na sua casa de campo.”
“Minha casa de campo?”
Pronto. Nada mais típico do que eu fazer papel de idiota quando sou pego de surpresa. É como se o tempo acelerasse demais para eu acompanha-lo conscientemente.
“Não. A casa de campo dele. Ela fica perto do município de Teresópolis. No Vale da Cuca.”
Eu calo a boca como forma instintiva de auto-defesa.
“...”
“Obviamente, nós temos como providenciar seu transporte até lá.”
“Que proposta de trabalho? E porque em Teresópolis? Desculpa a pergunta, mas isto é alguma pegadinha?”
Se eu pudesse sentir o impacto das idiotices que eu digo com uma fração de segundos de antecedência...
“Nós já comandamos um depósito em sua conta corrente como forma de adiantamento no valor equivalente ao seu salário anual. Pelo tempo que você despender com o Sr. Caleb.”
“Meu salário anual? E como você sabe meu salário anual?”
“Da mesma forma que eu sei seu telefone.”
“...”Acho que ouvi uma risada.
“Quantos anos você tem?”
Eu desisto de tentar segurar a rédea e relaxo.
“O quê?”
“Eu ouvi você rindo ou foi impressão minha?”
“Olha... O senhor pode vir?”
“Você. Me chama de você. Você riu, né?”
“Eu tenho trinta e dois anos.” Ela responde montonicamente. Você pode ou não vir?”
“Você tem voz de mais velha. Mas, rindo, pareceu bem mais nova...”
Tenho vontade de chorar e engolir de volta esta frase. Eu sou realmente péssimo em diálogos improvisados. Eu já devia ter aprendido que eu sempre preciso ensaiar antes de qualquer conversa.
Ela ignora meu comentário idiota e segue num tom profissional. É obvio que a risada dela foi de desprezo, mas na minha memória ela é quase terna.
“Você pode vir?”
Meu impulso é dizer “Lógico! Me passa o endereço!”, mas eu consigo me controlar.“Eu não posso largar meu trabalho assim, sem aviso prévio. Eu preciso me organizar...”Ela faz uma pausa longa demais. Espero que ela não desista.
“Olha, eu posso providenciar um motorista para buscá-lo amanhã de manhã.”
“Pode ser às oito?” Eu respondo automaticamente.
“Confirmado às oito. O nome do motorista é Marrom.”
“Marrom. Tudo bem.”
“Até logo.”
“Tchau, um beijo.”
Clic.
Um beijo? Um beijo? O que diabos eu estou fazendo? Quantos dias eu vou ficar lá? Que tipo de roupa eu levo? O que eu vou dizer pra Lisandra? E como ela sabe tanta coisa sobre mim? Como eu sou idiota, idiota, idi... O telefone interrompe a minha autocomiseração.
“Daniel?”
“Amanda?”
“Eu esqueci de dizer. Lembre de trazer uma mala para pelo menos cinco dias. Por via das dúvidas.”
“Cinco dias?”
“Pelo menos.”
“Ok.”
“Até logo.”
“Um Beijo. Tchau.”
Mandei um beijo de novo! Brilhante, Dom Juan.
2No caminho pro escritório eu ensaio mentalmente o discurso pra minha chefa, enquanto tusso repetidamente, dobrando o corpo sobre o volante. Lisandra, obrigado por tudo, mas eu recebi uma proposta irrecusável de trabalho.
Não.Lisandra, vai pra puta que te pariu.
Essa é boa. Direta, quase elegante apesar de um pouco grossa. Mas eu não vou queimar pontes.
Que tal: Lisandra, eu preciso de uma licença não remunerada. Um mês sabático.
É, não deve ser tão difícil convencê-la.
3.
Chego no escritório com as mãos geladas. Cumprimento todas as pessoas mecanicamente, quase sem voz. Bato na porta do escritório da Lisandra. Lisandra é uma baiana filha de usineiros ricos. Ela virou diretora da PMKT, uma das maiores agências de marketing direto do país, provavelmente por indicações políticas. Eu a odeio. Mas sei que ela é boa pessoa.
“Com licença.”
Eu espero do lado de fora, com uma perna dentro da sala. Ela está falando no telefone, mas acena pra eu entrar e sussurra ‘espera um pouco’ com a mão direita cobrindo o fone. Ela me deixa esperando mais de dez minutos, em pé. Ela está falando com um cliente, contando um causo qualquer. De vez em quando ela me encara e levanta as sobrancelhas querendo dizer ‘desculpa, cliente, sabe como é, né”. Eu fico repetindo o meu discurso na cabeça.Ela se despede do cliente mandando uma ‘beijoca’, carregando no sotaque baiano.
“Oi, meu querido, desculpa. Senta, senta que é o mesmo preço.”
Eu sento na cadeira na sua frente. Minhas mãos estão geladas e a maldita sudorese nervosa resolve dar o ar da graça. Eu sinto uma gota de suor escorrer pela minha pele, acompanhando o vale da minha coluna vertebral, e desencosto da cadeira.
“Lisandra, eu queria te pedir uma coisa.”
“Ô meu bem, qualquer coisa”.
Só o sorriso ensaiado dela poderia ser o suficiente para me transformar num psicopata assassino. O sotaque e os ‘meu bem’ e ‘meu querido’ são só requintes de crueldade. Eu quero matar ela por estrangulamento. Eu me apoio na mesa.
“Sabe o que é...”
Ela se reclina abrindo ainda mais o sorriso. Totalmente confiante.
“Eu preciso de um dia. Talvez dois. Pra resolver uns problemas. Pessoais.”
Um ou dois dias? O que diabos eu estou falando? A Amanda falou cinco dias!
"Meu amor, você tá com algum problema de saúde? Olha, não se preocupa não. A gente termina a campanha do Banco Jóia e depois você tira um dia pra resolver o seu problema.”
Ela abre sua agenda de couro da Louis Vuitton ou Prada, ou coisa que o valha, e examina passando a ponta da caneta nas páginas.
“Olha, que tal dia dezoito?”
Eu engulo seco. O suor já molha a barra da minha cueca e começa a escorrer pela fenda da minha bunda. Eu tento me ajeitar na cadeira. Estamos no dia dois.
“Eu preciso amanhã.”
“Não, bem, amanhã infelizmente não dá.”
O sorriso fica complacente com uma quedinha da cabeça pro lado esquerdo.
“É que eu precisava...”
Minha voz some.
“Olha, vamos chegar a um acordo. A gente pode tentar terminar o projeto mais cedo. Quem sabe você sai antes mesmo do dia 18?”
“Ok.”
“Você é lindo! Tá tudo bem com você, né?”
“Tudo.”
Exceto o fato de eu ser completamente idiota. Eu saio da sala com um sorriso preparado com muito esforço. Ela sorri magnânima e não espera a minha saída pra pegar o telefone.
4.
Eu estou sentado olhando pra tela do computador do meu cubículo. Na tela, os títulos dos nossos templates de projeto esperam seus blocos de texto. Todo projeto tem o mesmo formato, os mesmos títulos e subtítulos. Há seis anos eu preencho o conteúdo abaixo destes títulos e subtítulos. Nos últimos meses tem sido impossível abrir o documento padrão sem sentir náusea. Neste momento, no entanto, as letras dos títulos se embaralham e parecem novas. Sabe quando você repete muito a mesma palavra e, de repente, percebe o quão esquisita ela é? Esquisita. Es quisita. Es qui zi tá. Esqui-zita. E squisit ah. Bom, é a mesma sensação.
Eu leio o primeiro título: Objetivo do Projeto. Qual o objetivo deste projeto? Vender mais cartões de crédito? Como escrever isto de forma prolixa? ‘Maximizar a captação de proponentes de crédito através de canais de mídia alternativa’. Ótimo, vou vomitar. Eu repouso as mãos no teclado. Qual será o rosto da Amanda? Deve ser uma gorda desdentada.
Eu imagino a Julia Roberts em Erin Brocowitz.
Eu olho por trás do ombro direito. Ninguém prestando atenção. Eu ligo a Internet. Digito Caleb. Ótimo, só um milhão e seiscentos mil links. O primeiro link é o “Caleb Project Home”. A descrição abreviada, em inglês, diz: “Develops media tools and training resources to equip the body of Christ for strategic ministry to unreached peoples”. Maravilha! Eu fantasiando uma oportunidade de mudar de vida e a proposta que eu recebo é pra trabalhar na área de marekting de uma igreja evangélica. Não pode ser. Eu troco a procura para “Renato Caleb”. Nenhum hit.
“Matando trabalho, hein bonitão?”
Filho da Puta. Eu viro de costas e vejo o Arthur debruçado na baia vizinha. O Arthur tem quase dois metros de altura e a graciosidade de um albatroz pra acompanhar.
“Duas oxítonas pra você. Vaitomá nocú!”
“Nossa, dormiu com o Bozo e acordou gozado?”
“Quantos anos você tem? Onze?”
“Você que começou.”
“Não, você saiu do SEU cubículo pra vir me incomodar no meu.”
“Ah, desculpa, eu não sabia que você estava tão ocupado.” Ele vira os olhos com afetação.
“Vai se fuder. Vamo tomá um café”
Caminhamos em silêncio até a copa, contornando a selva de cubículos. Ele vai até a máquina de café e fala: “hoje, você paga.” Estendendo a mão pra mim. Eu sempre pago. Eu pego duas fichas na carteira e entrego pra ele. Enquanto a máquina processa o expresso, Arthur se vira pra mim e se recosta na máquina com os braços cruzados sobre o peito.“Que cara de cu.”
“Aconteceu um negócio estranho comigo hoje.”
“Você finalmente assumiu sua homossexualidade e deu.” ele diz, fingindo cara de sério.Eu não respondo. Abro a portinha da máquina e pego o meu expresso. Aproximo o copo da boca e fico soprando o café, ritmicamente. O Arthur procura o meu olhar por baixo do copo.
“Fala!”
Eu afasto o café da boca. “Eu recebi uma proposta de emprego.”
“Ah...Achei que era alguma coisa séria. Não se preocupa, com certeza é algum engano!”
Eu deixo ele rir sozinho.
“Pra onde?”
Eu o encaro. “Não sei.”
Agora é vez do Arthur me encarar em silêncio. E minha vez de rir. Ele faz cara de azedo e eu resolvo contar pra ele.
“Você não vai abrir esta boca mole, vai?”
“Estou ofendido” ele diz com as duas mãos sobre o peito direito e cara de despeito.
Eu sei que nossa performance é patética. Uma mistura de Jerry Lewis e Dean Martin de segunda categoria com uma versão mexicana de um sitcom americano. Mas eu confesso que é uma dos poucos alentos no ambiente claustrofóbico do escritório.
“O coração é do outro lado”
“É que foi uma facada no rim”
“O rim é embaixo e nas costas.”
“Quem é? Desembucha!”
“Um cara. O nome é Renato Caleb”
“Nunca ouvi falar. É um trampo particular?”
Finalmente ele larga o modo palhaço e parece se interessar de verdade no assunto. Engraçado como precisamos de todo este joguinho de troca de insultos e piadas infantis para demonstrar carinho.
“Uma mulher ligou pra mim hoje de manhã.”
“Uma mulher que não é a sua mãe, eu suponho.” Ele faz cara de reflexão, espremendo os olhos e coçando o queixo.
Eu ignoro.
“Ela disse que representa este tal de Caleb. E quer que eu vá fazer uma entrevista com ele, pra ouvir uma proposta de trabalho.”
“Vai fazer a entrevista. Quê que você tem a perder.”
“A entrevista é em Teresópolis. Perto de Teresópolis.”
“Teresópolis?”
“É uma cidade serrana perto do Rio.”
“Tem certeza que esta proposta é séria?”
“Não. Não tenho.”
“Ela não falou qual era o trabalho?”
“Não.”
“E você não perguntou?”
Eu não respondo e ele começa com alguma brincadeira, mas eu não consigo mais entender o que ele está falando. Minha visão embaça. O depósito. Que imbecil! O depósito!“Puta merda, o depósito, esqueci totalmente da porra do depósito” eu jogo o copo de café ainda cheio no lixo e disparo em direção ao meu cubículo. O Arthur me segue quase tropeçando nos meus calcanhares.
5.
Eu digito a senha errada do banco duas vezes antes de conseguir entrar na minha conta corrente pela Internet. Eu respiro fundo antes de clicar no botão de visualizar o saldo da conta corrente. O Arthur quase segura a minha mão pra empurrar o mouse. Eu o afasto com um empurrão da cadeira.
Inacreditável. O Arthur me olha magoado: “ e você regula pra me pagar um café!”
“Eu sempre pago o seu café!”
“Como você conseguiu juntar esta grana sem me contar?”
“A Amanda depositou esta grana pra mim...” Eu me perco em pensamento.
“Quem é Amanda seu gigolô?”
“Quem é Amanda?” Eu gelo quando ouço o sotaque baiano. O Arthur pede licença, totalmente sem jeito e se esquiva pra desviar da Lisandra e sair do meu cubículo. Eu encaro a Lisandra congelado de pânico. Porque diabos eu fico tão idiota diante da mínima possibilidade de stress? Espero que ela não pergunte de novo. Eu fecho a janela da Internet e puxo o assunto da apresentação pro Banco Jóia.
“Eu já comecei a trabalhar no relatório.” Eu digo apontando para a frase solitária debaixo do tópico ‘objetivo do projeto’. Ela não tira os olhos de mim e, mesmo virado pro computador eu sinto seu olhar queimando a minha nuca. “Você, hein!” Ela sorri fazendo “humpf” pra mim. Ela me acerta de leve com a caneta na cabeça e começa a se afastar do cubículo. Já no corredor ela, dá uma parada, vira-se na minha direção e diz: “Se a gente pensar mais no relatório e menos em romance, quem sabe a gente não consegue terminar isto até o dia 15 e você pode tirar o seu dia pra ‘coisas pessoais’”.Será que a Lisandra tem uma quedinha por mim? Ela pareceu tão despeitada quando perguntou “quem é Amanda”. E esse papo de romance? Parece conversa de mulher traída. Não. Não pode ser. Eu sou um pé-rapado, especialmente comparado a ela. E apesar de mais jovem, não sou o típico namorado-jovem-de-perua-recauchutada. Ela até bem comível, mesmo já tendo passado dos quarenta... Mas eu sou um cara fiel. Minha imaginação erótica está totalmente ocupada pela Amanda.
6.
Eu não sei arrumar mala. Nunca soube. Ainda mais tossindo feito um condenado. Espero que pelo menos uma camisa não chegue totalmente amarrotada.
Eu fecho a sacola com a certeza de ter esquecido alguma coisa fundamental, mas sem a concentração necessária para verificar. Seja o que Deus quiser.
Eu tomo um banho demorado e não consigo atribuir um corpo à voz da Amanda. Nada de sexo solitário no chuveiro hoje à noite. Especialmente com a cabeça tão ocupada. Eu programo o despertador do rádio relógio da cabeceira para as sete da manhã, me deito e apago a luz. Eu acendo o abajur e reajusto o alarme pras seis e meia e apago mais uma vez a luz. Meus olhos estão estatelados, encarando o teto escuro. Eu espero. E espero. Uma hora passa. Eu levanto e programo o despertador do celular, só pra garantir. Antes de deitar resolvo programar também o despertador da televisão, só pra dormir despreocupado. Deito de novo e fico ensaiando mentalmente alternativas para minha apresentação.
Frio e firme: “Prazer. Daniel. Obrigado pelo convite.”
Sorridente e caloroso: “Amanda? Muito obrigado pelo convite.”
Blasé e direto: “Olá. Daniel Esdras.”
Preocupado e motivado: “Prazer. Daniel Esdras. Não encontrei informações sobre o seu cliente na Internet. Estou ansioso em conhecer a natureza da proposta.”
Apaixonado e caliente: “Amanda. Eu estava ansioso por esse momento. Felizmente, valeu a pena esperar.”
Eu durmo e não sonho nem com a Amanda, nem com o Sr. Caleb, mas com a Lisandra me algemando e me jogando numa prisão, mas a prisão é a minha antiga sala da faculdade. Eu tento explicar alguma coisa pra ela, mas ela fica impassível, me encarando de espartilho, calcinha e blazer.
7.
Eu acordo dez minutos antes do despertador disparar. Eu me espreguiço na cama. Meu estomago dói. Eu tusso e me cubro. É isso aí. Vamos ver no que vai dar. Será que eu ligo pro escritório? Eu não posso simplesmente não aparecer. Mas o quê que eu vou dizer?Dane-se. Hoje talvez minha vida finalmente dê uma guinada. Eu sei que para a maioria das pessoas, momentos definidores só são identificados em retrospectiva. Uma humilhação pública ou uma vitória retumbante, a perda de alguém importante ou o encontro com a pessoa que será o amor da sua vida só se provam decisivos depois do desenrolar das suas conseqüências. Mas eu sempre conheço meus momentos definidores na mesma hora em que eles acontecem. É bem verdade que para conseguir esta façanha eu lanço mão de uma artimanha um tanto espúria. Eu sempre assumo que qualquer momento é definidor. Eu projeto conseqüências extremas para cada troca de olhares, cada erro ou acerto, cada palavra proferida. Vivo esperando pelo evento, por mais banal que seja, que vai me resgatar da minha vida. Ou me danar de vez. Claro que eu freqüentemente erro, já que a maior parte dos momentos da minha vida acaba se em becos sem saída. Mas, por outro lado, eu nunca tive um evento definidor que eu não tenha reconhecido, de antemão, como tal. E no caso deste convite descabido, eu não consigo imaginar como eu posso estar errado.
8.
Eu estou vestindo uma calça caqui com camisa azul. Eu me olho no espelho da portaria pela vigésima oitava vez e finalmente entendo o que está me incomodando. Estou parecendo um funcionário da Blockbuster. Eu devia ter vestido um terno. Ah, foda-se, vou tentar desligar minha neurose e ser um pouco mais maduro e seguro. Eles é que me convidaram. E até pagaram. E muito.
Eu caminho de um lado pro outro no hall. São sete e quarenta da manhã e eu já estou elétrico.
Deve ser um engano. Eu devia ter transferido o dinheiro pra outra conta. Ou sacado tudo e escondido debaixo do colchão. Agora o banco vai estornar a transação. Será que o banco pode fazer isto? Não consigo imaginar pra que alguém me contrataria. Nunca fiz nada de útil. Exceto um projeto de feira de ciências na 6a série sobre poluição fluvial. Aquele foi o ponto alto da minha produção intelectual - de lá, foi só morro abaixo.Um sedan de luxo preto encosta-se à calçada. Eu tusso seco com a ponta da língua projetada pra fora da boca. Um sujeito negro e baixinho, compacto como um tronco e vestindo um paletó marrom sai do carro e caminha em direção ao portão. Eu caminho ao encontro dele.
“Seu Daniel Esdras?”
“Prazer.” Eu estendo a mão.
Ele pega a minha mão com um sorriso largo estampado no rosto enrugado. “Eu sou o Marrom.”A palma da mão do Marrom é uma lixa em forma de balão. Ele segura a minha mão com força e por quinze segundos a mais do que eu julgaria necessário. Ele estende a mão para pegar a minha sacola.
“O senhor tem outra mala?”
“Eu devia estar levando uma mala maior, né?” eu penso em voz alta.Marrom solta uma risada roca, igual a do Rabugento. Ele aparentemente não me leva a sério. Coloca a minha sacola no porta-malas e segura a porta de trás esperando que eu entre no carro, o sorriso firme e forte.
Resignado e envergonhado, eu entro e sento no banco de couro.Ele dirige em silêncio, mas eu sinto que ele ainda está sorrindo. Fico até arrepiado. Estou me sentindo num episódio do “Além da imaginação”; fico quase esperando que ele vire um lobisomem ou coisa do gênero.
Antes de ter um crise de nervos ou comer um dedo de tanto roer a unha eu resolvo quebrar o silêncio.
“Marrom, você conhece o Renato Caleb?”
“O seu Renato? Ô! Desde quando ele usava calças curtas. Eu trabalhava pro pai dele.”
“O quê que ele faz?”
“Como assim?”
Como assim? Como assim como assim?
“Ele trabalha com o quê?” Eu explicito.
“Ah.” Pausa “ O seu Caleb num trabalha não.”
O tom da resposta, não sei porque, parece mais sério. Eu sinto que o sorriso do Marrom, que parecia uma cicatriz de tão fixo, sumiu. Eu procuro, em vão, a boca do Marrom no espelho retrovisor pra confirmar. Aposentado? O Marrom não deve ter muito mais de sessenta anos; e disse que conhecia o Caleb desde quando este usava calças curtas. Como este pode estar aposentado? Será que é um herdeiro playboy?
“Quantos anos tem o seu Caleb.”
O motorista ri sozinho, numa pausa longa, antes de responder.
“Tem trinta e quatro. Mas ele vive dizendo que tem mais de cem.”
Ele parece se divertir com a sua resposta.
“Uma alma velha.”
Eu digo por falta de algo melhor pra encerrar a conversa.
9.
Eu nunca tinha andado de helicóptero. Graças a isto, eu finalmente consigo me distrair a caminho do Rio de Janeiro. Eu viajo com o Marrom no banco de trás, mas sem falar nada além de comentar sobre a vista da cidade de São Paulo. “Pelo menos daqui de cima ela não é tão feia.” Ele, obviamente, ri.
Chegamos na hora do almoço em um heliporto no Rio. A vista na chegada é estonteante. Eu sinto que só a viagem já vale ter provavelmente perdido o emprego.Do heliporto pegamos outro carro e o Marrom me informa que em duas horas e meia estaremos chegando. Eu nem me lembrava de ter caído no sono quando acordo com o sacolejo da estrada de terra. Eu me espreguiço e ouço a já familiar risada do Marrom: “Bom dia!Já ta quase chegando.” Eu vejo os seu olhos me olhando pelo retrovisor.Eu tenho ânsia de vômito. Mas o Marrom deve ser mineiro. O seu ‘quase’ demora mais de meia hora, que com o sacolejo da estrada que alterna terra e paralelepípedos amplifica o meu enjôo.
O carro passa por um portão de metal alto e entra numa estradinha de pedras quadradas ladeadas de imenso gramado. Eu vejo uma casa de tijolos aparentes, grande, mas não suntuosa no topo do terreno em forma de colina. Atrás da casa, pinheiros, eucaliptos e outras árvores altas que não reconheço, dançam ao vento se inclinando tanto que parece que vão quebrar a cada oscilação. É uma cena linda.
Eu faço um esforço deliberado de registrar os detalhes na memória. É uma cena digna de momentodecisivonavida.
O carro se aproxima da rotatória na frente da casa, que envolve um jardim florido e cuidado com esmero. Eu vejo um vulto feminino esperando o carro na frente da porta alta de madeira. Será a Amanda?
Gulp.
10.
Rabos de cavalo. Eu tenho um fetiche por rabos de cavalo. Acho que se até a Araci de Almeida usasse rabo de cavalo eu me apaixonava por ela. É pura covardia que a Amanda seja, não somente jovem e bonita, mas esteja me esperando de calça preta e camisa branca, pulôver vermelho jogado nas costas, usando rabo de cavalo. Parece uma propaganda da Pólo Ralph Loren. Ela tem cerca de um metro e setenta, cabelos castanhos lisos e estatura quase magra demais. Eu desejo intensamente poder verificar meu cabelo num espelho antes de encontrar com ela, mas me conformo em passar a mão nos fios oleosos, antes de sair do carro. Para piorar, eu sinto o tecido da calça repuxar com uma ereção surpresa, logo antes do carro chegar à frente da casa. Eu quero tanto morrer que nem sinto raiva! Eu saio do carro com as mãos na frente da calça, como um jogador de futebol em posição de barreira.
“Sr. Esdras?”
Nossa! Que sorriso gelado! Eu quero voltar pro carro. De preferência pro porta malas.
“Daniel. Amanda?”
Eu estendo a mão direita e enfio a esquerda no bolso, tentando disfarçar a ereção que já dói de tão intensa. Eu sorrio com esforço.
Ela me cumprimenta rápida e seca. Sua mão é fria, macia e fina. Se já houve mais perfeito exemplo de antítese do que um aperto de mão com Marrom e com a Amanda, eu desconheço. Ela me examina de cima a baixo, discretamente. Eu me sinto nu. Cubro novamente a frente das calças com as mãos dadas, fazendo esforço para parecer natural.“Prazer. Vamos entrar.” Ela olha pro Marrom por cima dos meus ombros. “Oi Marrom. Você leva as malas dele pro quarto vinho, por favor?”
O Marrom merece um sorriso quente, sincero. Porque ela me odeia?Ela entra na casa e eu sigo ela. No caminho eu imaginei que encontraria uma mansão Vitoriana, com estatuas de mármore e pinturas a óleo emolduradas em dourado nas paredes. O que eu encontro é muito mais aconchegante. Uma casa de campo, com móveis com cara de uso e a decoração rústica e quente. As paredes internas são repletas de janelas que transbordam a luz oblíqua do fim de tarde. Finalmente uma sensação reconfortante.“Porque você não vai até o seu quarto e toma um banho. O Sr. Caleb quer falar com você antes do jantar. Seu quarto é o segundo a direita, subindo a escada. Eu te espero às 19:00 na Biblioteca.” Ela aponta pra sala a nossa direita. O tom da Amanda é tão ríspido que beira o agressivo. Eu nem consigo responder. Aceno que sim com a cabeça e sigo o Marrom pro quarto. Quando chegamos no quarto ele se vira e estende a mão, pra se despedir.“Prazer, viu. Tudo de bom”
Eu seguro a mão do Marrom pra perguntar.
“Ela é sempre zangada assim?” eu inclino a cabeça na direção da sala no andar de baixo.Ele dá sua risada de Rabugento e balança a cabeça, saindo do quarto: “Foi um prazer, viu.”Quando ele sai do quarto, eu me sinto um órfão abandonado. O quarto tem um cheiro ótimo, uma cama com roupa de cama alegre, uma escrivaninha de madeira com um laptop fechado e quadros de aquarela com molduras de madeira patinada. Mas eu me sinto numa masmorra gelada. Me arrependo de ter vindo sem perguntar mais. Sinto até saudades da tonta da Lisandra.
11.
Eu abro a minha sacola e estendo as roupas na cama, enrolado num roupão grosso, de banho tomado. Todas as camisas estão marcadas nas posições das dobras e as calças amarrotadas. Escolho uma calça preta com camisa branca. Melhor não arriscar. Será que eu devia ter trazido um terno?
Eu desço as escadas pisando com a ponta dos pés pra tentar diminuir o barulho seco do sapato nos degraus de madeira. Eu sigo em direção à biblioteca e bato na porta entreaberta. A Amanda está sentada atrás da escrivaninha repleta de papéis, digitando em um laptop.
“Entra. Senta aí” Ela fala sem levantar os olhos.
Eu sento. E suspiro.
Ela levanta os olhos do computador. “Eu imprimi uns papéis pra você assinar. Você quer dar uma olhada?”
“Claro, claro.” Eu estendo as mãos, solicito. Ela me entrega duas folhas de papel impressos com letras pequenas.
“São só alguns contratos de confidencialidade. Nada fora do ordinário.”
Ela estende uma caneta. Eu pego e olho nos olhos dela. Ela quase sorri.
“Isto tudo é muuuito estranho pra mim, sabe.”
Ela sorri, aparentemente a contragosto. Apóia os cotovelos na mesa e o queixo nas costas das mãos, esperando uma elaboração. Eu continuo.
“Vocês ainda não me disseram o que vocês querem de mim.”
O sorriso dela abre, num tom um pouco condescendente demais pro meu gosto.“É pra isso que você precisa assinar estes papeis.”
Pronto. O meu tesão perdeu pro ódio. Odeio ser tratado com condescendência. Eu posso ser um sujeito pacato, mas tenho algum resquício de orgulho.
“Eu preciso de alguns minutos pra ler.”
Ela levanta. E começa a sair da sala.
“Fique a vontade, meu caro.”
Antes que ela saia, eu não resisto.
“Porque eu sinto uma certa agressividade no seu tom?”
Ela dá uma paradinha. “O que você sente, só você pode expli” Ela interrompe a frase no meio. Eu viro e vejo um sujeito jovem entrar na sala e segurar um dos ombros da Amanda enquanto se dirige a mim.
“Daniel?”
Ele abre um sorriso largo, caloroso e vem em minha direção, conduzindo a Amanda pela mão de volta pra sala.
“Desculpe a Amanda. Ela não é muito fã desse meu projeto, não é?” Ele pisca pra ela e estende a mão em minha direção.
“Muito prazer! Renato Caleb!”
Quando eu aperto a sua mão direita, ele envolve a minha com a sua esquerda, num gesto de carinho que me deixa constrangido. Minhas bochechas queimam. Eu procuro o rosto da Amanda por trás dele e vejo uma cara de reprovação resignada. Os olhos do Caleb brilham.
“Finalmente eu te conheço pessoalmente!”
Minha vida sempre foi uma produção de segunda categoria. Dos cenários aos diálogos, do elenco à iluminação. A partir da ligação da Amanda, no entanto, é como se eu estivesse vivendo um upgrade para superprodução. E eu não estou só falando do helicóptero, da aparência da Amanda ou da imponência da casa de campo. É como se a qualidade da imagem e do som da minha vida tivessem migrado de analógica pra digital. A luz do Sol que incidia na casa de campo quando eu cheguei era de uma natureza diferente da luz fria do meu cubículo, ou da luz insuficiente do meu apartamento ou da luz ofuscada pela poluição de São Paulo. As vozes do Renato e da Amanda são cristalinas, sem qualquer ruído de fundo. O único elemento que me permite acreditar que eu não estou vivendo num filme é a ausência de trilha sonora. Eu adoro esta nova sensação. Eu normalmente prefiro as produções européias, mas este ritmo Hollywoodiano é sensacional. Apesar de estar num ambiente estranho, com pessoas estranhas e numa circunstância totalmente nova, eu me sinto bem. E surpreendentemente seguro. Eu sorrio de volta para o Renato.
“Que papéis são estes?”
Eu estendo a mão e entrego o termo de confidencialidade para o Renato. Ele pega o papel na mão, dá uma risada sonora e olha pra Amanda, que agora estampa uma cara tão amarrada e zangada que é quase cômica. Ele olha pra ela com a cabeça inclinada e faz um gesto de palmada com a mão direita estendida na sua direção. Ela cerra os olhos. Eu estou sorrindo, esperando que ele quebre o silêncio.
“Como foi sua viagem? Porque a gente não toma um drink antes do jantar pra se conhecer um pouco?”
Ele passa um dos braços pelas minhas costas e me conduz para a sala de estar. A Amanda segue para o outro lado, sem falar uma palavra. Ele me conduz para um sofá baixo de algodão branco, e eu sento, na ponta da almofada. A sala está quase escura, iluminada exclusivamente por um abajur de chão. Da posição onde eu estou, consigo ver a poeira de estrelas lá fora, através da janela vazia. Eu nem lembro qual foi a última vez que eu vi um céu noturno como este. Eu conto ao Renato, telegraficamente, sobre a minha viagem. Depois de um breve silêncio, eu lembro de lhe agradecer. Eu não consigo perguntar sobre a proposta, com medo de ferir alguma regra de etiqueta que eu desconheça.
“Então...”
Ele está sentado, esfregando levemente os braços da poltrona de couro. O seu sorriso é sincero, quase infantil.
“Eu imagino que você deva estar curioso sobre a natureza do meu convite.”Eu sorrio, esperando que ele continue. Eu tento me concentrar e encarar o Renato, mas meus pensamentos estão perdidos na Amanda. A indiferença e a hostilidade dela estão me deixando louco. O Renato me examina em silêncio, como se estivesse esperando a minha deixa.
“É claro que eu estou curioso!”
Ele ri reconfortado e se rearruma na ponta do assento, com os cotovelos apoiados nos braços da poltrona. Eu me sinto como o aluno atencioso que fez a pergunta certa.
“Você já pensou em escrever um livro?”
12.
Não. Eu nunca sequer cogitei escrever um livro. Eu já quis ser ator de cinema, astronauta e milionário. Mas nunca escritor. O estereotipo de escritor que eu tenho é de um sujeito com a cara do Woody Allen, mas sem o dinheiro dele. Além disto, eu não me lembro de ter escrito nada mais extenso do que duas ou três páginas, na faculdade. No entanto, a pergunta direta do Renato me fez entrar no “modo de entrevista de trabalho”. Em entrevistas eu sempre respondo positivamente e, quando tenho dúvidas sobre o que o meu entrevistador quer que eu diga, uso uma tática infalível: procuro identificar o que eu diria intuitivamente, e digo exatamente o contrário.
“Claro.” Eu respondo com as sobrancelhas levantadas.
Eu vejo que dei a resposta correta mais uma vez. O Renato me encara alargando seu sorriso, junta as mãos produzindo um aplauso solitário e se levanta.
“Maravilha! Vamos jantar!”
Minha expressão deve estar entregando o quanto eu estou perdido, porque o Renato dá uma gargalhada e me chama mais uma vez pra jantar. Eu levanto, atordoado e o sigo até a sala de jantar.
Ele me oferece um lugar na lateral da mesa posta e pede licença entrando para a cozinha. Eu ouço a risada do Marrom de dentro da cozinha. Não consigo deixar de imaginar que eles estão rindo de mim.
Eu espero sentado sozinho com os cotovelos apoiados na mesa de madeira maciça e tento me concentrar e refletir sobre os últimos acontecimentos.
Eu ouço a voz do Renato se aproximando por trás da porta da cozinha. Ele abre a porta da cozinha, e sem entrar na sala de jantar me pede desculpas, explicando que o jantar ainda não está pronto. Segurando a porta e olhando pra dentro da cozinha ele pede que eu chame a Amanda que, segundo ele, deve estar na varanda.
Era tudo que eu queria ouvir. Eu levanto da mesa e sigo em direção à varanda, ouvindo as risadas abafadas pela porta da cozinha desaparecerem a cada passo. A Amanda está, de fato, na varanda, sentada de costas pra mim numa cadeira de junco redonda. Ela está aparentemente lendo alguma coisa e massageando a própria nuca com a mão esquerda. O rabo de cavalo está desfeito, mas eu ainda continuo apaixonado por ela. É claro que eu sou um destes sujeitos que se apaixona com facilidade demais. Eu me apaixono por qualquer mulher (entre 18 e 50 anos de idade. Mentira, confesso que entre 15 e 50. Hubert de merda.) que cruza olhar comigo. Pode ser alguém no carro ao lado no trânsito, uma recepcionista de prédio, uma caixa de supermercado, uma atriz de cinema ou de novela mexicana. È como na frase do pessoal do Casseta e Planeta: “mijou sentado e não e sapo...”. Mas o fato permanece. Eu a olho massageando a nuca e cada vez que a sua mão afasta os cabelos o suficiente para deixar a nuca aparecer, eu sinto um tesão desproporcional ao ato. Sinto-me como o adolescente do conto “Os braços” do Machado de Assis. Eu limpo a garganta. Ela se vira, apoiando o braço no encosto da poltrona de vime e me encara levantando a sobrancelha. “Ah, é você.”
Eu não consigo esconder minha mágoa. Há alguns segundos eu estava adorando a nuca dela, como se fosse a estatueta de um Deus pagão. Em retribuição ela me encara com esse ar de indiferença. Ela percebe meu desconcerto e torce a boca, cuspindo as palavras com esforço.
“Olha, eu não tenho nada contra você”. Ela se levanta e vem na minha direção. Se eu tivesse um rabo, eu estaria abanando.“O problema todo é o cabeça dura do Renato...”
Eu espremo os olhos tentando enxergar aonde a frase terminaria. Mas fico sem saber. Ela sorri um sorriso de verdade, doce, e eu sinto as minhas pernas ficarem bambas. Eu preciso falar alguma coisa impressionante agora, que ela está com as defesas abaixadas.
“Eu acho que o jantar já está na mesa.”
Tipicamente charmoso e espirituoso.
“Ótimo. Eu estou faminta!”
Ela me acompanha em silêncio até a sala de jantar. O Renato está cheirando o conteúdo fumegante de uma travessa de prata e comentando alguma coisa com uma senhora imensa, com lenço amarrado na cabeça. Eles parecem extremamente contentes.
“Olá meninos! Finalmente! A sopa de abóbora já está esfriando, sentem!”.
A Amanda dá um beijo na senhora em forma de montanha, segurando as suas mãos e se senta. Eu sento no lugar que já tinha ocupado. O Renato já está enchendo as taças com o vinho tinto de um decanter. No breve silêncio expectante, todos emanam um contentamento leve.
Segunda Parte
1.Eu acordo com o despertador. Segunda-feira. Graças a Deus, eu não preciso me levantar. Eu esfrego a planta do meu pé na sola do pé da Amanda e beijo o seu ombro. Eu ainda estou inseguro. Se não estivesse, montava em cima dela e transava loucamente com ela. Mas não vou arriscar. Ainda não sei ler os sinais dela. E o temperamento intempestivo dela sempre me assusta. Ela esfrega os olhos e senta na cama, esticando os braços como numa ola. É incrível como eu me deito com uma mulher e acordo com outra totalmente diferente. Ontem, quando eu saí do banho, a encontrei de calcinha e camiseta, de joelhos na cama, me encarando com cara de fome. Tive, obviamente, uma ereção instantânea e ela riu e me pegou com as duas mãos. Mas de manhã ela parece estar de ressaca, culpada, arrependida. Nesta, em especial, eu não me perco em autocomiseração ou especulações sobre o comportamento dela. Hoje eu vou cometer um ato de traição e não quero deixar que o arrependimento prévio me imobilize.
Hoje o Renato vai me contar sobre a sua última volta, a do presente. E como ele se recusa a me dizer porque me contratou (ele desistiu das desculpas esfarrapadas há três semanas), eu decidi, finalmente, tomar uma atitude. Fico esperando na cama até ouvir o barulho do carro da Amanda se afastando na estrada de cascalho. Eu levanto e espio pela janela. Pego o telefone e me surpreendo com o tempo que eu demoro a lembrar de um número que eu discava todos os dias.
“Alô”.
O som curto e nasal é inconfundível, mas eu confirmo.
“Arthur?”
“Esdras? Esdras seu filho da puta, onde ce ta?”
“No Vale da Cuca”
Eu me divirto com o meu tom blasé.
“Vale da Cuca? Pirou de vez? Você sumiu há mais de um mês e não manda nenhuma noticia. Sua mãe acha que você foi pra uma viagem de negócios.”
“Eu vim.”
“Que viagem de negócios? Você tem idéia do quão demitido você ta?”
Eu fico em silêncio. Eu detesto ser forçado a confrontar o efeito da minha procrastinação covarde em telefonar pro escritório. Cada dia sem ligar, a situação piorava. Até o ponto em que eu desisti e resolvi me esforçar pra simplesmente não pensar no assunto. Agora imagino que vou ter que enfrentar uma situação desnecessariamente deteriorada.
“Eu fui demitido, né?” Eu digo com a voz falhando e a temperatura do rosto elevando.
“Demitido? Olha, neste aspecto eu preciso até te agradecer. Nos primeiros dias do seu sumiço eu escutei uns quarenta xingamentos nordestinos que eu nunca tinha ouvido. E quando a Lisandra descobriu que os arquivos das propostas e apresentações, inclusive a do Banco Jóia, estavam gravadas no seu disco local – protegidas por uma senha que só você conhece – ela quase chorou de tanto ódio. Obviamente a gente perdeu a conta do Banco Jóia pra concorrência. E você sabe o quão importante era este contrato pra Lisandra. Eu, se fosse você, não aparecia por aqui. Vai que a Lisandra contrata uns jagunços do pai dela pra te dar uma lição?”
Eu lembro todas as piadinhas que a Lisandra fazia sobre o Neno Bang-bang e o Cid Malvadeza, matadores profissionais da região das Usinas do pai. Segundo ela, o pai pagava quinhentas pratas pra dar sumiço em qualquer arruaceiro. Apesar do tom brincalhão, todo mundo sabia que as estórias eram mais verdadeiras do que gostaríamos de imaginar.
“Nem brinca com isso. Olha, eu liguei pra pedir um favor.”
“Favor? Você desaparece por um tempão e não manda um aviso”
“Eu mandei a minha mãe te avisar” eu interrompo.
“Sua mãe! Você não se digna a pegar o telefone pra me ligar, sua bicha!”
“Olha, Arthur, foi mal, eu fiquei meio que envolvido com esse projeto...” eu não sei por onde começar.
“Olha, Daniel, antes que eu esqueça: vai se foder!”
Eu fico esperando ele desligar o telefone na minha cara, mas sabendo que ele não vai. Um pouco porque eu sei que ele gosta de mim de verdade, mas mais ainda porque ele deve estar morrendo de curiosidade. Ele realmente não desliga, só suspira e fala.
“Fala, seu idiota, o quê que você quer.”
O Arthur trabalha na área de database marketing e é responsável pelos programas que extraem os nomes e endereços pras malas diretas, de acordo com segmentações mercadológicas. Eu sei que a PMKT compra o banco de dado do RAS, que contem todos os dados dos contribuintes do imposto de renda. A comercialização da base do RAS é proibida, mas todas empresas que trabalham com marketing direto têm uma cópia.“Eu preciso das informações de uns nomes.”
Ele fica em silêncio por alguns segundos. ”Você lembra o que fizeram com a Clarissa, né?”
Clarissa era a antecessora do Arthur. Ela foi pega enviando pro seu email pessoal os dados da família do namorado e foi demitida sumariamente.
“Sei.”
“Então, se você quiser as informações, vai ter que me contar pra quê. Se for um bom motivo, eu dou um jeito.”
Não é tão fácil transgredir. Só o fato de contar os nomes citados pelo Renato já seria grave o suficiente. Pedir para o Arthur se meter numa potencial enrascada, pior ainda. Mas contar a estória do Renato pro Arthur já seria demais. Acho que uma mentira branca, neste caso, é mais do que justificável.
“Eu preciso confirmar a capacidade de pagamento de uns caras que estão participando deste projeto aqui.”
“Insuficiente e vago. Uns caras, um projeto. Eu preciso de mais detalhes.”
“Olha. Pega as informações que eu te conto.”
“Você é um filho da puta. Se eu for demitido vou cobrar pensão vitalícia de você.”
“Arthur. Eu confio em você. Você é um gênio do crime.”
Eu passo a lista de nomes pro Arthur. Ele diz que vai olhar à tarde e me liga de casa, à noite. Ele pede o telefone. Eu digo que não tenho e, depois de uma breve discussão, o convenço a esperar eu ligar pra ele. Como eu vou conseguir falar com ele à noite, sem chamar a atenção do Renato, da Amanda, do Marrom ou da Arlete, eu ainda não sei. Mas tenho o dia todo pra descobrir.
2.Eu desço pra biblioteca pra encontrar o Renato. É incrível como eu já me sinto em casa depois de apenas um mês. Antes de me encontrar com ele, no entanto, eu passo na cozinha pra fazer uma boquinha. A Arlete está sovando uma massa e oferece a bochecha gorda para um beijo. Eu dou um beijo estalado, infantil e ela se derrete num sorriso. “Isso são horas? Vocês ficam namorando até tarde e a pobre da Amanda se atrasa e tem que sair correndo sem tomar café da manhã.” Ela fala tentando simular um tom de sermão, enquanto eu assalto a geladeira. “Ela que é preguiçosa e fica enrolando na cama!”. Eu falo a mentira óbvia (a Amanda é certinha demais e eu já sou o preguiçoso oficial do Vale) com a boca cheia do estonteante bolo de aipim da Arlete. Ela me ameaça com o rolo de massa. Eu saio fingindo uma fuga em direção à biblioteca.
O Renato está lendo o primeiro manuscrito da sua biografia. Eu confesso que não acreditava ser capaz de escrever tanto em tão pouco tempo. E confesso também que me surpreendi com a qualidade deste primeiro draft. É claro que o maior mérito é do próprio enredo. A estória do Renato é fantástica e obviamente mentirosa, mas não deixa de ser envolvente. Ele quis uma biografia não convencional. Sem releituras excessivas e sem a mácula do conhecimento dos eventos subsequentes. Ele quer uma biografia factual, em primeira pessoa e que coloque o leitor no tempo dos eventos, com o mesmo conhecimento que o autor tinha a cada momento. Por isto ele está me contando tudo aos poucos sem dar pistas sobre a conclusão dos eventos. Exceto o fato de que o relato vai terminar com um sujeito jovem sozinho numa cidadezinha da serra carioca rodeado de empregados e sem laços afetivos aparentes, narrando a sua estória pra mim.
Eu entro na biblioteca e ele levanta os olhos do manuscrito com um sorriso. “Excelente. Parece que eu estou assistindo a minha vida no cinema, interpretada por um ator totalmente diferente de mim. Os fatos e os eventos são os mesmos, as reações do protagonista são familiares, mas diferentes. É incrível como eu não pensei ou senti as coisas que você escreveu.”
Eu não sei se isso é um elogio. “Você quer que eu reescreva?”
“Não, não. De forma alguma” ele abre um sorriso, “era exatamente isto que eu queria. Uma releitura”.
“Você já terminou a revisão? Quer continuar?”
“Você ainda não acredita.” Ele me encara.
“Não muito” eu confesso um pouco desconfortável. Apesar de esta ser a resposta óbvia, de certa forma, ao dizê-la me sinto um ingrato. “Eu só não consigo entender porque você me escolheu.”“Você foi a inspiração para esta minha biografia.”
Muso. Nada mais gay ou idiota. Segundo o Renato, foi lendo um livro escrito por mim que ele decidiu que iria me pedir para escrever sua biografia. Obviamente, isto foi na sua segunda volta e, portanto, ainda não teria acontecido nesta vida. É uma estória confusa, que fica um pouco mais clara depois de ler a sua biografia. De qualquer forma, é só mais uma mentira deslavada.
“Eu escrevi um livro que te inspirou...” eu torço o nariz.
“Teria escrito. Mas alguma coisa que eu fiz mudou isto...” Ele fica pensativo.
“O tom da sua narração é exatamente como eu lembrava. Mas falta alguma coisa. Nesta primeira parte do livro há melancolia em excesso. Falta humor e...” Ele aperta os olhos procurando uma explicação. “Compaixão. Não. Amor, eu acho”.
Eu me sinto desapontado e frustrado. Confesso que eu me orgulho muito do que escrevemos até agora. Normalmente eu me desculparia para cavar um elogio. Mas eu estou genuinamente ferido.
Ele se levanta.
“Antes de revisarmos, porque a gente não vai até o rio?”
O Rio das Pedras é meu lugar predileto do Vale da Cuca. É um rio relativamente pequeno, de águas geladas e transparentes que escorregam ao redor de pedras lisas de diversos tamanhos e tons. A entrada para o rio fica atrás da casa, onde o rio forma uma piscina natural. Na margem desta piscina natural, uma pedra achatada convida a sentar e ouvir as águas chegando à piscina natural por uma cascata e saindo dela num desnível suave. Esta pedra achatada está coberta de minúsculas flores amarelas que caem das árvores ao seu redor.
Eu sento ao lado do Renato que fica em silêncio catando sementes e flores distraidamente. Nós ficamos em silêncio. Eu adoro a sensação de poder ficar em silêncio sem desconforto. Mas depois de alguns minutos.
“Se você acredita mesmo na sua estória, porque você não procura a Camila de novo?”
Ele não responde. Fica observando os detalhes de um dos caules das flores.
“Eu não agüentaria...” ele faz uma pausa e muda de assunto. “Olha, eu estou gostando muito do seu trabalho.”
“Eu também. Mas confesso que ainda me sinto um impostor. Você tem certeza que eu devia estar redigindo a sua biografia em primeira pessoa?”
“Absoluta.”
Nós ficamos conversando sobre detalhes do draft até a hora do almoço. Depois do almoço o Renato diz que precisa ir até Teresópolis. Eu fico sozinho na casa, revisando o manuscrito.
Terceira Parte
1.
Acontece depois de uma noite sem sonhos. Eu abro os olhos e, inicialmente, não me surpreendo com o fato do quarto estar iluminado. Eu fecho os olhos e abro de novo. Eu cerro os olhos e tiro um menir de remela com a ponta os dedos. Eu sinto minha boca seca, meu estômago vazio, minha cabeça pesada e uma ereção matinal dolorida. Eu fecho os olhos e sinto dentro da cueca. E aí, com uma carga de adrenalina, eu realmente acordo. E tudo que está errado desaba numa torrente que sobrecarrega meus sentidos. O quarto é familiar, mas não é o quarto da minha casa. Eu não durmo de janela aberta nunca. E, principalmente, eu tenho muito mais pentelhos do que isto. Eu sento na cama com o coração palpitante. Meus pés mal alcançam o chão. A luz que vem da janela é uma luz oblíqua de manhãzinha de verão. Antes das batidas cardíacas desacelerarem, eu levo um susto que, não fossem as circunstâncias bizarras, me levariam certamente a um infarto fulminante.
Minha mãe, linda, jovem e de camisola entra no meu quarto. Linda, linda, linda. Como eu nem lembrava. Eu a encaro boquiaberto. Ela levanta as sobrancelhas e pergunta levemente irritada se eu já não devia estar vestido. Sai do meu quarto falando que eu vou perder o ônibus.
Eu tenho doze anos. Mas eu não tinha ontem quando adormeci. Minhas memórias se confundem e eu tenho dificuldade de manter os pensamentos nítidos. Eu estou atrasado pra escola, mas eu acho que eu já saí da escola. Eu acho que eu lembro da minha festa de formatura. Ou foi a formatura de um primo? Não sei, mas eu acho que até já me formei na USP. Não, não. A USP é em São Paulo e eu moro no Rio de Janeiro. Eu tento pensar claramente, mas eu estou quase molhando as calças. Eu levanto e vou até o banheiro. E aí levo o segundo grande susto.
Eu tenho 12 anos mesmo. Eu sou inberbe e cabeludo. Claro que sim. Acho que eu vi um filme sobre um sujeito mais velho. Ou uma novela. E o protagonista era eu. Ou era parecido comigo quando eu crescesse. Engraçado eu não lembrar do rosto dele, apesar de lembrar nitidamente de todo o resto. Eu estou atrasado pra escola. Eu termino de me arrumar e vou correndo até o ponto de ônibus.
2.
A felicidade que eu sinto quando entro na minha escola é tão desconcertante que eu sinto alfinetadas dentro do nariz. Prenuncio de lágrimas incontroláveis. Eu enxugo os olhos com a manga do uniforme e atravesso o pátio central, deslumbrado com a enorme mangueira que implode o concreto do chão com a força das suas raízes.
Quando eu entro na sala, meus amigos, com cara de sono, me cumprimentam friamente. Eu tenho uma vontade estranha de abraçar todo mundo. O sinal toca e todos sentamos. O Alexandre, nosso professor de história entra na sala nos cumprimentando com sua voz de tenor: “bom dia, senhores”.
A aula é sobre a Independência do Brasil e ele começa distribuindo uma charge do Miguel Paiva sobre o tema. A charge mostra dois sujeitos observando um terceiro comemorando em altos brados a Indenpendência. O primeiro comenta “O que será isto?” ao que o outro responde “Deve ser um novo produto importado”. Eu sinto uma estranha sensação de deja vu. O Alexandre pergunta se alguém se voluntaria a interpretar. Todos olham pra mim. Eu fico vermelho. Eu começo a articular uma resposta, mas num instinto, me calo. Meus amigos me olham perplexos e expectantes. O Alexandre inclina a cabeça pro lado, como que me procurando. “Caleb?” Eu levanto as duas sobrancelhas em sincronismo com os ombros. Eu olho em volta. O Eduardo finalmente rompe o silencio e apresenta sua interpretação tosca, não, pueril da charge. A aula segue normalmente.
No final da aula, no entanto, o Alexandre pede pra falar comigo. Eu consinto e sigo-o até a sala dos professores. Ele me olha com um sorriso inquisitivo.
“Tudo bem Caleb?”
“Ótimo.” É verdade.
“Você ficou mudo na aula de hoje.”
“Não queria parecer um puxa saco. Além disto eu acho que às vezes eu intimido os outros e dificulto a participação deles na aula.”
O professor deixa o queixo cair. Examina-me mexendo a cabeça, como que procurasse uma fenda ou um defeito qualquer no meu rosto. Eu simplesmente sorrio.
“Acho que você precisa se preocupar com você e deixar eu me preocupar com o resto da sala.” Ele tem um tom ofendido que eu não consigo determinar se fabricado ou não.
O sinal toca e ele me manda voltar pra sala.
Eu acompanho a aula de matemática com a facilidade habitual. Eu sempre fui bom aluno. Mas quando o professor distribui exercícios eu me assusto com a velocidade com a qual resolvo tudo. Em pouquíssimos minutos eu entrego a folha preenchida para o Professor Miguel. Quando eu me aproximo, ele me pergunta qual o problema. Eu respondo que nenhum e entrego os exercícios. Ele encara o papel mimeografado incrédulo e me parabeniza.
No recreio eu me esbaldo com uma coxinha de frango gordurosa e uma coca-cola (estranho o fato da máquina nem ter coca diet). O Flavio está no pátio mostrando pra todos seu novo brinquedo. É um walkman e ele está mostrando como trocar o lado da fita k7 sem tira-la do aparelho. Alguma coisa está errada com este aparelho, mas eu não consigo identificar o que. Ele pergunta se eu quero ouvir um pouco e eu respondo que sim. Eu ouço um trecho de Up where we belong do Joe Cocker e me disparo “toca mp3 também?”. O Flávio me olha e pergunta “o Quê?”, mas eu não lembro mais de onde tirei esta pergunta e resolvo deixar pra lá. Ele fica um pouco ofendido e comenta, na defensiva, que com certeza o aparelho toca petrês, mas ele não gosta muito.
Primeira Parte 2
1.
A sopa de abóbora é realmente divina. Eu me policio para não fazer barulho e não babar. O Renato me olha com um sorriso e fala enquanto sopra uma colherada de sopa “deliciosa, né?”Eu respondo que sim e ele me conta que a receita é secreta, mas que ele vem tentando descobrir todos os ingredientes há vários anos. Ele já descobriu o gengibre, o bacon e o maracujá. A Amanda corrige dizendo que não é maracujá e sim laranja. Eles discutem entre si e eu observo, completamente contente.
Pelo menos até a Amanda começar.
“Então, Sr. Esdras, conte um pouco da sua experiência pra gente.”Eu não fico intimidado. Cruzo os olhos com o Renato, que vira os olhos numa expressão de zombaria. De alguma forma totalmente inexplicável, parece que eu e ele somos amigos de longa data, quase irmãos, implicando impunemente com a irmã mais nova.
“Eu não tenho nenhuma experiência como escritor.” Faço uma pausa para conferir a expressão de aprovação do Renato. “mas imagino que sua investigação já tenha revelado este lapso na minha formação”. Eu carrego a palavra investigação de sarcasmo e me surpreendo com minha ousadia atípica.
“Eu estou me referindo à sua experiência profissional” Ele retruca com ar de nonchalante.
“Ah.” Eu sinto minhas bochechas esquentarem e depois queimarem quando me dou conta que elas estão esquentando. “Eu trabalho numa agência de marketing direto, como você sabe.” Eu falo isto como se estivesse assumindo um crime hediondo.
Ela espera um complemento. O Renato se recosta, na expectativa de uma elaboração.
“Eu sou gerente de criação.” Eu procuro uma forma adequada de explicar. “Mas na verdade eu faço as propostas de campanhas de venda, baseadas num modelo que eu desenvolvi há seis anos. Meu trabalho é qualquer coisa, menos criativo.”
A Amanda vira para o Renato e só levanta a sobrancelha na expressão universal de eu-não te-disse?
Ele ignora o gesto dela e olha pra mim pensativo. “Como diabos você foi parar numa empresa de marketing direto?”
É uma boa pergunta.
“Acho que não foi exatamente uma decisão, foi circunstancial. No início era pra ser um bico, pra juntar uma grana e viajar um pouco, sair de perto de tudo e de todos. Eu acho.”A Amanda não se dá por vencida pela indiferença do Renato. Eu entrei na festa sem roupa e ela se preocupando em me desmascarar.
“E como você pretende escrever um livro? Baseando-se em um modelo de mala direta ou em um roteiro de infomercial?”
“Depende do assunto.” Eu respondo mais afiado do que eu jamais desconfiei ser capaz. “Eu ainda não sei nada sobre este tal livro que eu supostamente vou escrever.”
“Ele não...Você ainda não contou pra ele?” Ela vira pro Renato, genuinamente curiosa.
“Eu comentei superficialmente. Mas ainda não entrei em detalhes. Amanhã, depois do café da manhã nós vamos passear pelo Rio das Pedras e eu vou contar detalhes do projeto.” Ele limpa a boca com o guardanapo de pano e levanta-se. “Vocês dois comportem-se. Boa noite.” Ele passa na cozinha e dá um sonoro beijo na cozinheira antes de subir pro quarto.A Amanda está claramente transtornada. Ela coça a ponta do nariz, arruma o cabelo atrás da orelha compulsivamente e com um sorriso azedo pergunta se eu preciso de mais alguma coisa.
Eu tenho uma vontade assustadoramente intensa de pedir pra ela vir pra cama comigo, mas felizmente resisto e evito fazer papel de idiota na minha primeira noite no Vale da Cuca.
2.
Quando eu subo pro quarto eu ponho meu pijama e quando vou escovar os dentes descubro que esqueci de trazer pasta de dente. Eu soco o granito da pia até ficar com a mão dolorida me xingando de idiota por entre os dentes. Tudo o que eu precisava era acordar de manhã e cumprimentar todos com um bafo de onça.
Eu ando de um lado pro outro como se alguma idéia brilhante pudesse botar espontaneamente a partir de um movimento repetitivo. Dane-se. Eu abro a porta do quarto e desço pra cozinha. Talvez a Arlete ainda esteja acordada.
Infelizmente está tudo apagado. Eu entro na cozinha tateando a parede e tenho que engolir um urro de dor quando dou uma canelada no balcão. Eu abro a geladeira para usar a sua luz e me localizar. Deve haver alguma dispensa aqui embaixo.
“O jantar num tava bom, não?”
A figura da Arlete iluminada pela luz da geladeira e contornada pela penumbra é quase caricata. Ele está vestindo um camisolão e uma touca e está de braços cruzados sobre a região onde os seios se camuflam na barriga. Eu fico paralisado como um fugitivo capturado e, sem refletir, levanto os braços em rendição.
“Num comeu direito e agora vai assaltar a geladeira, né?” Ela está simulando uma bronca.
“Na verdade eu queria uma pasta de dentes.”
Ela dá uma risada e fala pra eu trazer a minha escova que ela passa um pouco da pasta dela. Eu subo, pego a minha escova e desço as escadas correndo. Ela sugere que eu escove os dentes na área de serviço e já passe mais pasta para a manhã. Enquanto eu escovo os dentes ela fica em pose de cegonha me examinando de cima a baixo.
“Você vai trabalhar pro seu Renato?”
“Afxo que xim” Eu respondo com a boca cheia de espuma de menta.
“Ele tava uma espoleta com a sua chegada. Ficava andando de um lado pro outro que nem moleque. Me apertava a bochecha e dava beijo e logo depois ralhava por qualquer bobagem. Eu até falei pra ele que ele tinha era que casar de novo. Mas é só eu começar a falar em casamento que ele fica uma arara. Mas ele fica mantendo essa menina aí e como os caboclo diz num caga nem sai da moita. Eu acho errado, viu. Mas num gosto de ficar falando da vida dele não, que ele é um menino de ouro, viu. Tem um coração que só vendo. Sabe que ele pagou escola pra meninada toda lá de casa em escola particular? E no Rio, viu, no Rio de Janeiro mesmo e em escola de gente fina mesmo. Comprou até roupa e tudo pra molecada. Minha mais velha que fica lá; ele falou pra eu ficar lá mas eu tenho medo do Rio, viu, tem muito bandido lá. É tiro e droga e tudo. Mas pras crianças é melhor que o seu Renato disse, e ele sabe bem mais que eu que num sei nada, né?”
Eu já enxagüei a boca. “Aposto que você sabe é um bocado.”
“Eu sei é limpa chão, privada, janela, fazer feijão...”
“E sopa de abóbora com capim cidreira...”
Ela abre a boca estupefata. “O desavergonhado do Marrom te contou, num foi?”
Eu sorrio, ponho a pasta na escova, digo boa noite e vou pro quarto. A Arlete com uma agilidade inesperada pra alguém com seu peso ainda tem tempo de se virar e me dá uma palmada de mão cheia.
Eu subo as escadas rindo sozinho e com uma banda da bunda formigando do tapa. Realmente, eu já me sinto mais em casa aqui do que na minha casa.
Segunda Parte 2.
1.
Eu estou sentado no escritório, encarando o manuscrito. Eu balanço os pés, impaciente, sem conseguir me concentrar nas palavras. Eu folheio o bloco impresso. Os nomes das pessoas envolvidas na biografia saltam das páginas, como sereias, me convidando pra minha perdição. Eu vou até a cozinha tomar um copo de leite e comer um pedaço de bolo de aipim. Ando um pouco pelo gramado, apreciando a dança das árvores na montanha, cada camada de árvores balançando numa freqüência, como ondas num mar cenográfico.Eu tento não pensar no Arthur ou nos nomes que eu pedi para ele verificar, mas não consigo. Já são seis e meia e ele deve estar chegando em casa.
Eu sento e levanto da grama cinco vezes em dez minutos. Mexo nos ramos de alecrim plantados ao lado da casa, e sinto o seu cheiro subindo. E finalmente, tomo coragem, corro pra dentro da casa e disco o número do Arthur.
“Arthur”
“Oi.”
“Conseguiu o que eu te pedi”
Uma pausa longa.
“Claro, Daniel, conforme combinado.”
Claro, Daniel, conforme combinado? Que diabos é isto? Porque o Arthur está falando deste jeito.
“Arthur, tudo bem?”
“Excelente, obrigado por perguntar. Onde você está mesmo?”
Estranho.“Você tem os contatos dos nomes que eu te passei ou não?”
“Eu gostaria de entregá-los pra você, pessoalmente.”
“De jeito nenhum! Você ficou louco? Como eu vou explicar isso pro Renato?”
“É verdade.” Ele tem um tom resignado na voz. Alguma coisa está seriamente errada.
Eu pego uma folha de papel e uma caneta.
“Fala”
“Eh, você falou Vale da Cuca, né?”
“Porque?”“Acho que você devia sair daí o mai”
A ligação cai. Eu disco novamente, mas o telefone está ocupado. Eu começo a ficar inquieto. Que diabos aconteceu com o Arthur? Ligo mais algumas vezes, mas sem sucesso.
2.
Eu fico sentado no braço da poltrona, encarando o telefone. É como se eu pudesse hipnotizar o aparelho e faze-lo tocar. O Arthur deve estar aprontando alguma brincadeira. Eu gosto do Arthur, mas nossas brincadeiras idiotas ficam especialmente infantis em retrospecto. Eu lembro dos nossos diálogos repetidos com uma certa nostalgia condescendente. Como se só eu tivesse crescido, aprendido a ser um adulto e o Arthur permanecido uma criança, sozinho no escritório.
Eu tento formular hipóteses, mas estou mergulhado numa estranha letargia. Eu só percebo quanto tempo fiquei congelado na mesma posição quando ouço o barulho já familiar do carro da Amanda estacionando.
Eu desço para recebe-la como um moleque tentando encobrir alguma arte. Eu abro a porta antes dela conseguir virar a chave na fechadura e sorrio sem conseguir controlar um rubor repentino.
“Oi.” Ela diz plantando um beijo no meu lábio e seguindo pra cozinha.
“Oi” eu respondo quase sem emitir som e a sigo mantendo uma respeitável distancia.
Ela enche um copo de água e bebe às goladas, me encarando por cima da borda.
Ela faz um “Ahh” nada feminino, espreme os olhos mordendo o lábio inferior e apoiando a mão na cintura. Ela dá um sorriso e diz, vindo em minha direção.
“Nem pensar coelhinho. Hoje a gente vai jantar lá no Renato.”
Coelhinho? O fato de ela imaginar que eu estou querendo sexo me alivia e constrange ao mesmo tempo. Eu me sinto incrivelmente inferiorizado. Por ser um mentiroso e, talvez mais ainda, por tão pateticamente um mendigo por atenção e carinho.
“No Renato.”
“Ele não te disse nada?”
Eu gosto muito do Renato. De verdade. Mas o prospecto de encontrá-lo dispara numa rajada de adrenalina a lembrança da conversa com o Arthur. Eu engulo seco querendo ter a habilidade do Renato de voltar no tempo e desfazer o pedido que eu fiz ao Arthur.
3.
No caminho pra casa do Renato, a Amanda é minha namorada. A sensação é boa e assustadora. Ela entrelaça os dedos com os meus e faz piadinhas carinhosas pontuadas por beijos e xingamentos carinhosos. Ela arruma os cabelos atrás da orelha, me chama de idiota e eu tenho uma ereção. Ela ri como uma menina e anda quase saltitando. Solta e feliz ela fica vulnerável e eu, involuntariamente, aproveito a baixa da sua defesa. Seu caminhar aos pulinhos fica ridículo. Eu acho sua voz fanhosa demais. Seus caninos trepados nos incisivos já não parecem tão charmosos. Eu não consigo mais localizar exatamente onde reside a natureza hipnótica dos seus olhos castanhos. Mas ela percebe a minha ereção e me lembra que a minha mente crítica anda bem descolada da minha libido. Ela me ri e eu devolvo, feliz de reentrar na cortina do encanto.
Quando chegamos na porta da casa ela arruma a saia e fica séria. Ela toca a campainha e me olha sorrindo. Por um momento meu terror em encontrar o Renato depois de passar os nomes pro Arthur é substituído por um ciúme visceral. Eu quero estrangular o Renato e arremessar a Amanda no chão, humilhar os dois. Sinto-me um intruso, um impostor. Eu começo a queimar de ódio e despeito, indignado pelo amor não correspondido da Amanda ao Renato. Eu tenho vontade de virar as costas e ir embora sem explicações. À moda Flitcraft, sem dizer adeus. Mas aí o Renato abre a porta com o seu habitual sorriso e de braços abertos. Eu aceito o abraço depois da Amanda, mesmo que ainda com autoconsciência excessiva. Meu ciúme se dissipa em admiração de irmão caçula. Não, de filho. De filho traidor, bem seja dito.
Eu começo o jantar com medo de me embebedar e me entregar. Mas baixo a guarda depois da primeira taça de vinho tinto. Durante o prato principal, o Renato promete uma leitura de trechos da biografia na sala de estar. Ele me encara com cumplicidade e eu quase explodo de satisfação. Que carência patética. Coelhinho. Eu quero e não quero que a Amanda ouça a leitura.
Todos se arrumam no sofá, inclusive a Arlete e o Marrom, que mal conseguem conter sua agitação e ficam rindo como duas crianças se cutucando no sofá.
O Renato dá dois petelecos na taça de cristal, pedindo silêncio. Quando ele vai começar a ler, o Marrom interrompe:
“Vocês ouviram isto”
Todos inclinam a cabeça, apertam as pálpebras e levantam os olhos para uma diagonal imaginária. É o som de um carro se aproximando. Todos olham pro Renato. Ele encolhe os ombros e pede pro Marrom dar uma olhada. Ele levanta e anda acelerado em direção a cozinha. Ele pega uma jaqueta e sai pela porta da frente. Aquilo enrolado na jaqueta era uma arma?
Terceira Parte 2
1.
“Eu tenho tido umas sensações muito estranhas.”
“São os hormônios.” Meu pai responde enquanto se levanta de debaixo da pia, com um grunhido. “Abre a torneira de novo.”
Eu abro a torneira e espero. Meu pai encara o sifão numa atitude de vitória antecipada, até o gotejamento recomeçar.
Num gesto de estoicismo extremo, ele enfia o alicate na caixa de ferramentas sem reclamar ou xingar e empurra com o pé direito a bacia pra debaixo do sifão.
“Arlete” Ele grita “não funcionou.”
“Esta infiltração vai continuar assim até a gente se mudar daqui.” Eu digo sem pensar muito.
Meu pai me encara pensativo. “Acho que você está sendo muito pessimista”. Ele diz resignado.
Eu penso em explicar, mas desisto antes de começar. “Sabe quando você fica fissurado numa música e não consegue tirar ela da cabeça?”
Meu pai começa a cantar uma vinheta de comercial. Eu ignoro e continuo. “Eu tenho tido esta sensação o tempo todo.” Meu pai está de costas, arrumando o armário de ferramentas.
“Qual música?” Ele pega uma chave de pressão e volta com um sorriso malicioso em direção à cozinha. Eu sabia que ele não desistiria tão facilmente.
“Então. Tem esta música que eu não lembro onde eu ouvi. Aliás, o Denis disse que esta musica não existe. Mas não é só a música.”
“O Denis que anima festinhas de discoteca?”
“Hi-fis”
“Hi-fis” Ele repete com tom empostado.
“É. Este Denis. Mas tem também imagens de filmes que eu lembro nitidamente, mas não consigo achar o filme. E uns pesadelos estranhos.”
“Molhados?”
“Você ta prestando alguma atenção no que eu estou dizendo, ou você não é multitask o suficiente pra apertar um sifão e escutar uma estória do seu filho ao mesmo tempo.”
Meu pai tira a cabeça de debaixo da pia. “Multitask?”
“Sei lá.” Eu já estou impaciente demais. Tenho vontade de arrancar a ferramenta da mão dele e acertar com ela em cheio na sua testa.
Eu sonhei de novo com a cena dos aviões atingindo os prédios. A cortina de poeira e fumaça, as pessoas correndo, os bombeiros. Eu fiquei fixado no número 911 neste sonho. O Flávio falou que obviamente era o número de emergência nos Estados Unidos. “Nine one one” ele disse pomposamente se exibindo para a Alessandra. “Nine Eleven” eu corrijo e ele me olha azedo.
2.
A surpresa mesmo foi na festa do Jaime. Eu segui ele e um grupinho seleto pro quarto. Ele conectou o seu moderníssimo sintetizador DX-7 e o Gigio botou o violão no colo. As meninas ficam extáticas de antecipação. O Jaime faz uma demonstração completa do órgão com toda a gama de sons irritantes antes de começar a tocar um ritmo pré-programado e as notas iniciais de Wish You were here. As meninas fazem simulam sons de assobio de tietes. Eu vejo o Gigio arranhar os acordes de base no seu violão DiGiorgio. Eu acompanho murmurando a versão desafinada dos dois. Quando eles terminam e as meninas começam a sair eu sento na cama do Jaime, ao lado do Gigio e vejo ele dançar seus dedos curtos simulando um solo sem emitir som. Eu pergunto se ele pode me emprestar o violão. Ele parece ofendido com a pergunta. É como se eu tivesse pedido sua cueca emprestada.
“Se você não sabe tocar, vai desafinar.”
Normalmente eu não discutiria, mas desta vez eu insisto. “Prometo que eu não vou desafinar.”
O quarto já está mais vazio. O Jaime sai do quarto advertindo que ninguém deve TOCAR no teclado. Eu ponho o violão no colo. Ele parece gigante. Eu sinto as cordas com os dedos da mão esquerda. Eles desliza pelas cordas e assumem formatos de acordes. Eu começo a dedilhar com o dedo direito. É verdade que eu não toco como um virtuose. Muitas notas saem abafadas ou trocadas, mas eu surpreendo a todos (inclusive eu mesmo) com uma versão dedilhada simples de “Hey Joe”, do Jimmy Hendrix, por um simples motivo: eu nunca toquei num violão antes. O Gigio fica me encarando incrédulo, boca aberta, com a mágoa de quem foi enganado enchendo seus olhos d’água. O Jaime volta pro quarto e pergunta se eu sei tocar Wish you were here. Eu respondo afirmativamente e acompanho sua versão sofrível com incrível facilidade.
3.
O Festival de música da escola é um daqueles eventos de avaliação subjetiva. Para qualquer observador externo é só mais um daqueles eventos obrigatórios que os pais são obrigados a se submeter. Cada pai suporta bravamente quatro horas de performances sofríveis para poder testemunhar o sofrimento infligido aos outros pais pelo seu próprio rebento, durante míseros cinco minutos. Para os filhos, por outro lado, é o momento definidor de suas vidas. Nele haverá a ratificação dos estigmas. Os nerds vão participar de corais com seus cabelos engomados e camisas abotoadas até o pescoço e os cools vão montar suas bandas pop com penteados exagerados e camisas abertas sobre os peitos púberes.
Para mim, o festival de música representou muito mais do que a confirmação do meu recém adquirido status de cool. Ele definiu completamente os meus anos seguintes ao som de “Tremedeira numa Noite Quente”.
Não foi fácil convencer o Jaime a abandonar Wish You Were Here por uma música de composição minha. Somente depois de ensina-lo a solar no teclado com o arranjo de Tremedeira numa Noite Quente que ele começou a amolecer. No livreto do festival, imprimiram “Jaime Nigri e Renato Caleb: Tremedeira numa Noite Quente (letra e música Renato Caleb)” com a letra da balada impressa abaixo. Meu pai leu o livreto incrédulo, com o nariz torcido e possivelmente com algum receio. Minha mãe beijou minha testa e me deu parabéns, sem imaginar o quanto esta música ainda faria por ela.
No dia D eu entrei no palco mais confiante do que imaginava possível. O Jaime arrumava incessantemente seu cabelo e acenava para a platéia, com postura de galo de briga. Quando a luz do holofote apontou pra mim eu comecei a dedilhar a introdução melada da música. O público aprendeu o refrão e acompanhou já na terceira vez. Como era de se esperar, o primeiro lugar ficou para o coro interpretando uma peça de Vila Lobos. Nós não recebemos sequer a menção honrosa, mas durante semanas fomos congratulados e ouvimos a baladinha romântica sendo cantarolada pela escola.
4.
É provável que eu tenha tido centenas de outras memórias futuras. Mas todas ficaram perdidas ou ofuscadas pela comoção causada no final do ano seguinte. Os Vira-latas já eram famosos com um ou dois hits tocando nas rádios. No dia dez de novembro de 1984 eles cantaram, num show no Maracananzinho, seu novo lançamento. Tremedeira numa noite quente foi um hit imediato. A platéia do Maracananzinho foi ao delírio e pediu bis, raridade para lançamentos.
No domingo de manhã, o Jaime me liga antes das oito da manhã.
“Já ouviu? Já ouviu? Já ouviu?” Ele parece em transe.
“Jaime?” eu falo sem abrir os olhos.
“Já ouviu? Você já ouviu, porra?” A voz dele tem tom de irritação.
“Ouviu o quê, seu louco?” Eu entro na defensiva enquanto percorro a memória por alguma obrigação que eu teria assumido com o Jaime.
“Eles tão tocando a nossa música. Igualzinha. Ta tocando na Transamérica direto desde ontem...” Ele parece que vai chorar.
“Eles quem? Que música?”
Ele começa a me explicar, mas interrompe agitado. “Ligorrádio. Ligorrádio!”
“Eu não tenho rádio no quarto.” Eu respondo exasperado.
Ele aumenta o volume do seu e eu ouço, abafado pela linha telefônica, o Polé, vocalista dos Vira-latas, repetindo chorasamente o refrão da música que eu compus.
Ou não compus?
Primeira parte 3