Thursday, June 24, 2004
Sonhos (1)
Sinto-me desorientado e sonolento. Caminho pelo corredor escuro do prédio da faculdade, aparentemente deserto. Um pouco a minha frente, no entanto, percebo uma luz fria sangrando de uma porta aberta e ouço vozes. Aproximo-me sem qualquer hesitação e entro na sala.
A maior parte das 20 pessoas na sala está de pé, como no intervalo de uma aula. Há um murmurinho no qual não consigo distinguir nenhum diálogo específico.
Porque somente duas pessoas não são vampiros? Eu esfrego meu pescoço frio e tento lembrar se eu já fui mordido ou não. Não me lembro.
Resolvo perguntar, sem me direcionar a ninguém em especifico porque somente a Amparo e a Wanderleia não estão vampirizadas. Um dos jovens mais próximos de mim responde em tom blasé: “olha o reflexo da janela”, enquanto aponta a grande janela de vidro que dá para o estacionamento. Não é preciso mais do que um relance para a janela que, refletindo a luz fria da sala com o breu noturno do lado de fora, parece quase um espelho. O reflexo de Amparo é a imagem de Jesus Cristo. Eu exclamo, sem muita cerimônia e menos surpreendido do que estaria se estivesse plenamente consciente: “Ih, o reflexo da Amparo é Jesus Cristo!”.
Wanderleia, do outro lado da sala, retruca com tom de beata assustada com seu sotaque paraense: “Ai, não fala deste jeito não, que tem gente que acredita nestas coisas!”. Wanderleia é uma moça baixa e, se você não tem ainda um estereotipo de mulher paraense, resolve este problema depois de vê-la.
Antes que eu possa refletir sobre a situação bizarra, uma moça com cabelo tingido de loiro e pele bronzeada entra na sala. Dois jovens a agarram e tentam morder seu pescoço. Ela se debate mais irritada do que assustada e estende a mão numa queixa resignada pedindo minha ajuda. Eu começo a tentar afastar os jovens dela, mas minha tentativa é tão inútil quanto tímida. A moça acaba levando a mordida e olha pra mim com uma expressão de desprezo, torcendo a boca em reprovação. Eu claramente a ouço pensando “panaca!”. Envergonhado e constrangido, me aproximo cabisbaixo e peço desculpas. Ela responde quase que automaticamente com um chute em cheio no meio das minhas pernas. Eu caio sentado no chão, mas não sinto dor. Ela estende a mão para me ajudar a levantar misturando o sorriso de resignação com um balançar de cabeça de condescendência do tipo “tsc, tsc, tsc”.
A professora entra na sala, uma senhora miúda e enrugada que lembra minha avó paterna. No papel que encontro sobre uma das carteiras, leio as alternativas para pauta da aula: “Gravidez” e logo abaixo “fim do mundo”.
Sento na carteira e volto a olhar para a janela que, deste ponto de vista, já não reflete tão claramente a imagem de todos na sala. Movimento a cabeça procurando mais nitidez no reflexo. Vejo no reflexo do espelho que cada rosto real corresponde ao rosto de um amigo de infância. Exceto a menina de saiote que carrega um urso de pelúcia pendurado pelo braço, com o pescoco caído como que desvertebrado. Parece a anã das meninas do Velásquez.
A maior parte das 20 pessoas na sala está de pé, como no intervalo de uma aula. Há um murmurinho no qual não consigo distinguir nenhum diálogo específico.
Porque somente duas pessoas não são vampiros? Eu esfrego meu pescoço frio e tento lembrar se eu já fui mordido ou não. Não me lembro.
Resolvo perguntar, sem me direcionar a ninguém em especifico porque somente a Amparo e a Wanderleia não estão vampirizadas. Um dos jovens mais próximos de mim responde em tom blasé: “olha o reflexo da janela”, enquanto aponta a grande janela de vidro que dá para o estacionamento. Não é preciso mais do que um relance para a janela que, refletindo a luz fria da sala com o breu noturno do lado de fora, parece quase um espelho. O reflexo de Amparo é a imagem de Jesus Cristo. Eu exclamo, sem muita cerimônia e menos surpreendido do que estaria se estivesse plenamente consciente: “Ih, o reflexo da Amparo é Jesus Cristo!”.
Wanderleia, do outro lado da sala, retruca com tom de beata assustada com seu sotaque paraense: “Ai, não fala deste jeito não, que tem gente que acredita nestas coisas!”. Wanderleia é uma moça baixa e, se você não tem ainda um estereotipo de mulher paraense, resolve este problema depois de vê-la.
Antes que eu possa refletir sobre a situação bizarra, uma moça com cabelo tingido de loiro e pele bronzeada entra na sala. Dois jovens a agarram e tentam morder seu pescoço. Ela se debate mais irritada do que assustada e estende a mão numa queixa resignada pedindo minha ajuda. Eu começo a tentar afastar os jovens dela, mas minha tentativa é tão inútil quanto tímida. A moça acaba levando a mordida e olha pra mim com uma expressão de desprezo, torcendo a boca em reprovação. Eu claramente a ouço pensando “panaca!”. Envergonhado e constrangido, me aproximo cabisbaixo e peço desculpas. Ela responde quase que automaticamente com um chute em cheio no meio das minhas pernas. Eu caio sentado no chão, mas não sinto dor. Ela estende a mão para me ajudar a levantar misturando o sorriso de resignação com um balançar de cabeça de condescendência do tipo “tsc, tsc, tsc”.
A professora entra na sala, uma senhora miúda e enrugada que lembra minha avó paterna. No papel que encontro sobre uma das carteiras, leio as alternativas para pauta da aula: “Gravidez” e logo abaixo “fim do mundo”.
Sento na carteira e volto a olhar para a janela que, deste ponto de vista, já não reflete tão claramente a imagem de todos na sala. Movimento a cabeça procurando mais nitidez no reflexo. Vejo no reflexo do espelho que cada rosto real corresponde ao rosto de um amigo de infância. Exceto a menina de saiote que carrega um urso de pelúcia pendurado pelo braço, com o pescoco caído como que desvertebrado. Parece a anã das meninas do Velásquez.
Comments:
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Gostei bastante da atimosfera fantástica!
Foi um sonho seu? Dá pra enxergar a nevoa na borda das páginas,daquela maneira como faziam alguns programas de TV um pouco mais antigos (lembro-me de "no mundo da lua" usando muito isso). Muito bem feito e divertido.
Também curti muito o cap 1 do rocky raccoon (os personagens podem ficar bem interessantes). Depois vc me mostra os outros capts.
Dan
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Foi um sonho seu? Dá pra enxergar a nevoa na borda das páginas,daquela maneira como faziam alguns programas de TV um pouco mais antigos (lembro-me de "no mundo da lua" usando muito isso). Muito bem feito e divertido.
Também curti muito o cap 1 do rocky raccoon (os personagens podem ficar bem interessantes). Depois vc me mostra os outros capts.
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